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Gambiarra olímpica

Comitê Olímpico Internacional permitiu que atletas russos participassem dos Jogos de Inverno como apátridas

A Rússia não está participando da Olimpíada de Inverno de 2018, em Pyeongchang, na Coreia do Sul. Mesmo assim, há quase duas centenas de atletas russos disputando medalhas. O responsável por tal contrassenso é o Comitê Olímpico Internacional (COI). Pressionados por evidências incontestáveis de um esquema de doping patrocinado pelo governo de Vladimir Putin, os dirigentes da organização decidiram, há dois meses, banir a delegação russa dos Jogos. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, respondeu dizendo que os americanos “não conseguiriam vencê-los de forma digna” e por isso defenderam a exclusão da Rússia. O veto do COI, porém, não foi total. Com o pretexto de não prejudicar atletas que podiam comprovar que estavam limpos, foi criada uma gambiarra olímpica pela qual 169 russos se credenciaram para os Jogos sob a condição de participar como apátridas, sem direito a bandeira ou hino do seu país, e identificados apenas pela sigla OAR (Atleta Olímpico da Rússia, na tradução do acrônimo para o português). Em provas individuais, nas quais cada atleta defende o próprio esforço e mérito, o conceito até faz algum sentido. Mas o filtro poroso concebido pelo COI produziu uma bizarrice: a de seleções que não representam país algum. O time OAR está no curling — o curioso esporte da vassourinha que parece bocha no gelo —, nas provas de montanha e nos rinques de patinação, como o time feminino de hóquei sobre o gelo, composto apenas de atletas russas mas que não pode ser chamado de seleção russa nem tem o brasão olímpico russo — e sua torcida é, inteirinha, de russos com bandeiras russas. É uma punição de araque.

Publicado em VEJA de 21 de fevereiro de 2018, edição nº 2570