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Fui skinhead, feri pessoas

Após ser presa por crime de ódio, Angela King, de 42 anos, fundou uma ONG contra o extremismo

Quando criança, aprendi com meus pais xingamentos raciais, homofóbicos, estereotipados. Sofria bullying na escola por não me encaixar nos padrões convencionais enquanto lutava com minha sexualidade. Eu me odiava e não entendia o que acontecia comigo. Cresci na Flórida, com pais religiosos. Durante a adolescência, sentia que, se eles descobrissem que eu era gay, seria excomungada por minha família e passaria a eternidade no inferno. Essa foi uma das razões que me levaram a seguir um caminho errado. Aos 12 anos, vivi uma experiência humilhante: estava na puberdade, enfrentava problemas de autoestima, e uma menina que tinha três vezes o meu tamanho arrancou minha blusa na frente de toda a sala de aula. Depois disso, decidi que eu seria a pessoa a praticar bullying.

Virei uma jovem raivosa e me envolvi com pequenas gangues do bairro. Teria continuado se não tivesse sido estuprada por um dos membros de uma gangue. Sentia um vazio dentro de mim, como se não possuísse valor ou propósito de vida. Foi quando me aproximei de grupos de extrema direita. Participei do movimento skinhead por quase oito anos e fiz parte de organizações racistas como Aryan Nation, American Front e World Church of the Creator. Elas me acolheram e aceitaram o ódio dentro de mim. Pela primeira vez na vida, senti que fazia parte de algo maior. Ali, trocávamos nossa identidade pela sensação de pertencimento.

Fazia de tudo nos grupos, mas principalmente recrutamento e propaganda para mulheres brancas. Procurava outros jovens perdidos e cheios de raiva. Cheguei a recrutar famílias inteiras. Durante esse período, cobri meu corpo de tatuagens racistas. Não me importava em atrair atenção negativa para mim, desde que me notassem. Eu era violenta. Nos grupos, havia muitos conflitos internos, e eu era a pessoa encarregada de impor as regras que fossem quebradas. Então, batia nas mulheres que desobedecessem aos preceitos.

Numa noite, saí com algumas pessoas do movimento e bebemos muito. Decidimos assaltar uma loja de propriedade de judeus e doar o dinheiro à organização. Fiquei no carro enquanto um dos meus colegas entrou armado no local. Escapamos naquele dia, mas alguém nos delatou e eu acabei presa, aos 23 anos, por um delito relacionado a crime de ódio. Passei três anos na cadeia, de 1999 a 2001.

Eu achava que as outras presas me tratariam mal por eu ser racista, mas, para minha surpresa, uma parte delas me acolheu com gentileza, mesmo sabendo da minha história. Algumas eram latinas e negras — mulheres que eu teria desumanizado antes e de quem não teria compaixão. Elas me faziam perguntas difíceis sobre minhas crenças e comportamentos. Como estávamos encarceradas, eu não tinha como fugir do confronto. A forma como fui tratada desarmou minha violência e meu ódio, e me deu coragem para olhar minha vida e ver as escolhas horríveis que havia feito.

Foi assustador sair da prisão. Levei um bom tempo para romper com meus velhos hábitos. Às vezes, pensava em xingamentos quando cruzava na rua com pessoas diferentes ou que eu achasse que fossem gays. Demorou anos, mas superei isso. Fui para a faculdade, formei-me em ciências sociais e fundei a ONG Life After Hate (A Vida Depois do Ódio). Hoje trabalho com entidades que ajudam pessoas envolvidas com o extremismo a reconstruir sua vida.

Recebo ameaças por e-mail. Sou cuidadosa, mas não vivo com medo. Ainda me sinto culpada por tudo o que fiz, e lutei por mais de uma década contra a ideia de me perdoar. Se pudesse mudar meu passado, apagaria os episódios em que machuquei outras pessoas, mas não meu tempo na prisão nem a experiência que ganhei. Se modificasse essas coisas, não seria capaz de fazer meu trabalho. Hoje, uso minha história para mostrar que é possível mudar. O mundo é um lugar maravilhoso, e devemos ser capazes de conviver com todas as diferenças.

Depoimento a Julia Braun

Publicado em VEJA de 9 de maio de 2018, edição nº 2581