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FHC e os males do Brasil

Em novo livro, o ex-presidente fala do descompasso entre o avanço da sociedade e o atraso dos sistemas políticos

Por Roberto Pompeu de Toledo - 20 abr 2018, 06h00

Há um grito parado no ar. Assim reza a primeira linha do primeiro capítulo de Crise e Reinvenção da Política no Brasil, o novo livro de Fernando Henrique Cardoso, que chega neste fim de semana às livrarias. O grito é de uma sociedade perplexa e indignada com a corrupção e o desgoverno, mas também de uma “classe política” acuada e desnorteada e, não menos sonoro, de analistas que tateiam no escuro em busca do sentido destes dias. “Vivemos uma aceleração da história”, afirma o autor, mais adiante. “Crises e mutações se sucedem e causam uma sensação de vertigem.” Retomando Marx, acrescenta: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”. E, insistindo em Marx, agora na afirmação famosa de que os filósofos apenas interpretaram o mundo, quando o importante é transformá-­lo, conclui: “Mais do que nunca, é imperativo interpretar o mundo para poder transformá-lo”.

O livro, adverte Fernando Henrique no prefácio, teve a participação do cientista político Sergio Fausto e do diplomata Miguel Darcy de Oliveira, ambos colaboradores do instituto que leva o nome do ex-presidente, com os quais houve “uma intensa troca de opiniões, correções e agregações de textos”. O processo de elaboração teve por base quinze longas entrevistas comandadas pelos dois parceiros. Nem por isso a obra é menos FHC, que a conduz em primeira pessoa, salpica-a de experiências vividas em seus mandatos e deixa sua marca a cada parágrafo. Os temas tratados são múltiplos, da derrocada do PT à reforma da Previdência, Trump, Macron e Brexit, mas grosso modo o livro se organiza em torno de três eixos: (1) as diferenças entre a sociedade atual, que ele chama de “contemporânea”, nascida nos anos 1990, e a sociedade “moderna” que a antecedeu; (2) a discrepância entre os avanços da sociedade e o atraso dos sistemas políticos; e (3) que fazer?. As habilidades do sociólogo e do político, ambos em boa forma aos 86 anos, combinam-se num trabalho que é também uma peça de combate, com um olho na eleição deste ano e além.

1. O contemporâneo e o moderno

A sociedade moderna era mais fixa e previsível. A grande clivagem eram as classes sociais, e as demandas se organizavam por meio de coletivos como os partidos e os sindicatos. “A despeito das tensões da guerra fria (…), os fluxos de capitais eram comparativamente pequenos e menos voláteis; o comércio internacional crescia, mas as empresas, mesmo as multinacionais, operavam dentro das fronteiras dos Estados nacionais; as tecnologias de produto e de processo, que se haviam transformado com a guerra, se estabilizaram no momento posterior.” Nos anos 1990 entram em fase acelerada de evolução avanços tecnológicos na nanotecnologia, na internet, na robotização. As grandes empresas pulverizam suas fábricas entre diferentes países ao mesmo tempo em que os mercados se interconectam, tudo com o objetivo de “concentrar os centros de criatividade, dispersar a produção em massa para locais de mão de obra abundante e barata e unificar os mercados, sobretudo financeiros”. Acrescente-se a incomparável revolução nas comunicações e está dada a partida para a transformação da sociedade moderna em contemporânea. A televisão é moderna; a internet é contemporânea.

“A fantasia romântica de que a representação política deve espelhar diretamente a vontade da sociedade só é realizável como farsa totalitária”

“Sociedades novas não quer dizer ‘boas sociedades’”, adverte Fernando Henrique. A globalização produzirá ganhadores e perdedores. Na nova sociedade as classes sociais não têm a preeminência de antes, no papel de grande divisor das lutas políticas; ganharam a concorrência de fatores de identidade como o gênero, a raça, a religião, a orientação sexual. Os sindicatos e os partidos perderam terreno para os movimentos e, sobretudo, para o indivíduo informado e conectado. “Tomando emprestado conceitos usados por intelectuais como Manuel Castells, Anthony Giddens e Ulrich Beck, as pessoas tendem a ser mais inteligentes, rebeldes e criativas do que no passado, na medida em que são chamadas a fazer julgamentos de valor e escolhas na vida onde, antes, havia conformidade com um destino preestabelecido.” Fernando Henrique afirma ter sido educado na ideia de que o indivíduo era contra o coletivo, e que “o bom é coletivo; o indivíduo significa egoísmo”. O indivíduo de hoje, no entanto, não é egoísta, mas participante. “Cidadãos informados e alertas não aceitam o papel de plateia passiva. Não querem ser espectadores, mas atores.”

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Um líder e uma mensagem - A França elegeu Macron (acima). No Brasil ninguém “definiu com clareza o novo rumo” François Guillot/AFP

2. Sociedade e política

O avanço da sociedade não foi acompanhado pelos sistemas políticos. Há um descompasso e um estranhamento entre um mundo e o outro. “O desafio está justamente em encontrar — ou inventar — as formas mais propícias à reconexão entre ‘o mundo da vida e da sociedade’ e ‘o mundo das instituições e do Estado’.” Tão apartado está o Estado das aspirações da sociedade que virou um estorvo. “A visão dominante em minha geração era a de que o Estado deveria defender a nação das arremetidas do imperialismo e proteger os pobres da superexploração da empresa privada.” Hoje o Estado “não só é grande como gorduroso” e apresenta um custo elevado a seu patrocinador, a sociedade. O Estado é identificado com “as corporações, os privilégios, a distribuição regressiva da carga tributária, o crédito subsidiado às empresas amigas do rei”. Sua grande e insubstituível função de provedor de “políticas públicas universalizadoras” fica obscurecida pelo acúmulo do acervo negativo.

Igual desprestígio atinge os partidos. Segundo o cientista político Jairo Nicolau, o Congresso atual, com seus 25 partidos, apresenta a maior fragmentação partidária entre todas as democracias do mundo nos últimos setenta anos. Salvo PSDB, PT e uns poucos mais, os partidos “se opõem uns aos outros sem que se saiba por quê”. O cidadão não se sente — nem é — representado. Representados são grupos de interesse — “da educação, dos donos de hospital, dos planos de saúde, dos bancos, dos ruralistas, da ‘bala’, e por aí afora” — pelos quais se mobilizam frentes suprapartidárias. Os partidos se organizam em diretórios nos quais se travam as disputas internas de poder. Ora, o cidadão está pouco se importando com isso. Importa-lhe “batalhar por uma causa: direitos humanos, meio ambiente, mulheres, gays, antirracismo”, questões às quais os partidos se mantêm alheios. “A desconexão entre a sociedade e a política é abissal.”

“Getúlio se dirigia a “trabalhadores”. “No mundo de hoje, os políticos falam com as pessoas”

3. Que fazer?

“Estou convencido de que o aprofundamento da democracia passa pela reconstrução dos laços de confiança entre a população e o poder”, afirma Fernando Henrique. Como consegui-­lo, se a mediação pelos partidos se revela tão inoperante? Se está ruim com os partidos, pior poderá ficar se aceitarmos soluções que substituam a democracia representativa pela ação direta dos cidadãos. “Se as novas tecnologias, por um lado, estendem as possibilidades de comunicação entre os cidadãos, por outro ampliam o impacto de técnicas e estratégias de manipulação em massa.” Na mídia social atuam robôs que estimulam polarizações e impedem consensos e acordos. “A fantasia romântica, de inspiração rousseauniana, de que a representação política deve espelhar diretamente a vontade geral da sociedade só é realizável como farsa totalitária.” Por isso, “é preciso revalorizar as instituições clássicas da liberal-democracia (parlamentos, partidos, separação de poderes e freios e contrapesos)”, as quais continuam “tão indispensáveis quanto sempre foram”.

CRISE E REINVENÇÃO DA POLÍTICA NO BRASIL, de FHC (Companhia das Letras; 240 páginas, 44,90 reais ou 29,90 reais em versão digital) //Divulgação

Outros dois elementos indispensáveis são os líderes e a mensagem. As lideranças, como é próprio da sociedade fragmentada de hoje, pulverizaram-se. Há líderes na mídia, nas igrejas, na universidade, na empresa, nos movimentos sociais, na cultura. “O esvaziamento da política gera um descompasso entre a pluralidade de pessoas criativas, capazes de inovar e liderar em vários setores da sociedade, e a liderança política.” Um líder e uma mensagem forte levaram Macron à Presidência da França. No Brasil ainda não apareceu o líder capaz de “definir com clareza o novo rumo” e transmitir a mensagem “com convicção e esperança”. E que mensagem seria essa? “Uma agenda progressista e contemporânea para o Brasil deve ser libertária em relação aos temas comportamentais e decididamente social-democrata nas questões distributivas, com ênfase tanto na equidade da distribuição do peso da carga tributária quanto na distribuição dos serviços e benefícios do Estado.” Os adversários a superar são três: o ultraliberalismo, a velha esquerda e o corporativismo.

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Na sociedade moderna os políticos falavam com sujeitos coletivos. Getúlio Vargas se dirigia aos “trabalhadores”. “No mundo contemporâneo os políticos falam com as pessoas.” E precisam saber como falar. “Uma das coisas que mais incomodam é os políticos falarem com base em certezas inabaláveis.” O mundo dialético ficou para trás. “O mundo dialético supunha uma verdade a ser revelada, uma finalidade inscrita na história. Os contrários resultavam sempre numa síntese. Os fins justificavam os meios. Dali para os gulags ou os campos de reeducação era um passo.” Cada decisão do governante tem de ser explicada. Sua arte é o convencimento, pelo qual se revalida, a cada passo. “O Brasil”, conclui Fernando Henrique, com otimismo, “está pronto para uma linguagem política diferente. Está pronto para a mensagem que dispensa marqueteiros, que deve ser transmitida pelo candidato com voz limpa na televisão, na internet, no rádio, onde for”.

Fica o recado. Algum dos senhores candidatos se habilita?

Publicado em VEJA de 25 de abril de 2018, edição nº 2579

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