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Feito de granito

Chamado às pressas para substituir o proscrito Kevin Spacey, Christopher Plummer fascina como o bilionário J. Paul Getty em 'Todo o Dinheiro do Mundo'

 (//VEJA)

Com a indicação de Christopher Plummer ao Oscar de ator coadjuvante, cimenta-se um dos eventos mais estranhos da história do cinema: a erradicação de um ator — Kevin Spacey, no caso — e sua substituição por outro intérprete em um filme já pronto, montado e “enlatado”. Em Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World, Estados Unidos, 2017), que estreia no país nesta quinta-feira, Spacey vivia o bilionário J. Paul Getty (1892-1976), célebre pela fortuna, pela coleção de arte, pelos modos secos e mais ainda por, em 1973, ter-se recusado a pagar o resgate pelo sequestro de seu neto, John Paul Getty III, de 16 anos. Cerca de um mês antes do pré-lança­mento do filme nos Estados Unidos, vieram à tona pesadas acusações de abuso e assédio sexual contra Spacey — acusações de teor tão tóxico que o diretor Ridley Scott julgou que Todo o Dinheiro… morreria antes de nascer. Numa decisão sem precedentes, Scott refilmou sequências inteiras e recorreu a truques digitais para apagar Spacey. Em seu lugar, colocou Plummer — que, além de ser magistral, prescinde de maquiagem pesada: aos 88 anos, tem idade próxima à de Getty (Spacey está com 58) e também feições ossudas e severas como as dele.

Depois de ver Plummer em cena, não se pode imaginar outro ator que não ele no papel. Argumentando que tinha catorze netos e que, se pagasse os 17 milhões de dólares exigidos pela vida de John Paul (o ótimo Charlie Plummer, sem parentesco com Chris­topher), logo estaria lidando com outros treze sequestros, Getty resistiu a bem mais que a repulsa da opinião pública: resistiu à força indomável de sua ex-nora, Gail, que partiu como um trator para cima do sogro e da polícia. Em desempenho excelente, pelo qual mereceria ter sido indicada a melhor atriz, Michelle Williams compõe Gail não como uma mãe desesperada, mas como uma mulher de excepcional autocontrole, tão cerebral no seu jogo de xadrez quanto o próprio Getty.

Durante cinco meses, Gail enfrentou pressões inimagináveis. Todos achavam que ela tinha dinheiro, e ela não tinha nenhum (abdicara dele no acordo de divórcio, para garantir a guarda dos filhos). John Paul, sequestrado em Roma por amadores, foi vendido a gente bem mais profissional, e infinitamente pior, que mandou pelo correio a orelha cortada do garoto. A mãe teve de lidar com o “facilitador” de Getty, o ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg), e virá-lo em seu favor. E, mais que tudo, arremeteu sem descanso contra um homem granítico cuja obsessão, mais até do que ganhar, era fazer com que os outros perdessem. É um combate tremendo com uma figura que, encarnada por Plummer, provoca não apenas a aversão de costume, mas sobretudo fascínio.

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567