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‘Fake history’

Coluna publicada em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567

Nosso Luiz Inácio tinha a palavra veloz e destravada como sempre, ao discursar perante intelec­tuais e artistas amigos, no Rio, no último dia 16. Disse, a propósito do presidente do tribunal encarregado de seu caso, o desembargador Thompson Flores: “Este cidadão é bisneto do general Thompson Flores, que invadiu Canudos e matou Antônio Conselheiro”. A palavra veloz, como nele é frequente, foi arrastando de roldão os fatos que se interpunham à frente. A frase contém, embutidos em suas singelas quinze palavras, cinco erros (um a cada três palavras), a saber:

1. O Thompson Flores atual (Carlos Eduardo) não é bisneto, mas sobrinho-trineto do outro;

2. O Thompson Flores que lutou em Canudos (Tomás) não era general, mas coronel;

3. O coronel Thompson Flores, integrante da quarta expedição contra o arraial de Antônio Conselheiro, não invadiu Canudos. Foi morto em combate em 28 de junho de 1897, mais de três meses antes da queda do arraial, em 5 de outubro;

4. O coronel Thompson Flores não pôde matar o Conselheiro porque morreu antes;

5. Ninguém matou o Conselheiro, falecido em 22 de setembro de males intestinais.

No mesmo evento, Luiz Inácio contou: “Eu estava no avião quando o Obama me ligou dando os parabéns pela conquista da Olimpíada. Quando eu cheguei ao Brasil, ele tinha ganho o Prêmio Nobel da Paz. Aí eu liguei para dar os parabéns. Aí ele falou: ‘Não sei por que eu ganhei’. Eu falei: ‘Obama, faça por merecer’. Obviamente aquele Prêmio Nobel que ele ganhou foi uma compensação pela derrota de Chicago na Olimpíada. Certamente que foi”. Os pontos mais altos da narrativa, na opinião do colunista, são os advérbios “obviamente” e “certamente” com que enfatiza sua convicção.

Lula não brincava. Quem viu assegura que falou a sério. Teríamos então o seguinte quadro. Ao ser anunciada a escolha do Rio de Janeiro para sede da Olimpíada, em 2 de outubro de 2009, Barack Obama, então em seu primeiro ano na Presidência, vê-se tomado de invencível frustração. Para proporcionar-lhe algum remédio, mobilizam-se as instituições internacionais. Alguém no Comitê Olímpico Internacional lembra que o Prêmio Nobel da Paz seria anunciado dali a uma semana. O COI entra então em contato com o comitê do Parlamento da Noruega encarregado do prêmio. A escolha — de um outro — já estava definida, mas os noruegueses mostram-se dispostos a ajudar. Refazem os procedimentos do começo ao fim, às pressas, e eis Obama compensado de uma derrota que trazia entalada na garganta. Os intelectuais e artistas amigos reagiram com aplausos, como já o tinham feito na declaração anterior.

A deseducação e a desinformação sempre fizeram parte do charme de Lula. Eram características que definiam sua especificidade. Outros políticos brasileiros tiveram origem humilde. Filho de tropeiro, Leonel Brizola só conheceu um banheiro com descarga aos 11 anos, ao visitar um amigo, e só aos 12 soube o que era escovar os dentes — mas estudou e formou-se engenheiro. A novidade de Lula foi haver chegado aonde chegou sem a mediação da educação. Tivesse aproveitado a ascensão social para estudar Direito ou aprender inglês, não seria o Lula. Mas convenhamos que está exagerando. Aos 72 anos, celebridade internacional, com a carreira feita e lugar assegurado na história (para o bem e para o mal), seria hora de permitir-se pequenas correções no perfil que tanto sucesso lhe granjeou. Não lhe custaria dano algum, por exemplo, checar os fatos que costumam alimentar sua poderosa oratória.

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O desembargador Thompson Flores também teria correção a fazer em seu perfil. O antepassado de Canudos morreu vítima de seu “forte temperamento nervoso”, segundo Euclides da Cunha, em Os Sertões. Sem “atributos essenciais de comando” nem “serenidade de ânimo”, lançou-se, “indisciplinadamente autônomo, sem determinação superior”, a um “ataque temerário”, e arrastou sua brigada ao desastre — tombando ele próprio com um tiro no peito. Algo da impulsividade do tio-trisavô vislumbra-se no sobrinho-trineto. Em entrevista a O Estado de S. Paulo, em agosto, ele afirmou que a sentença do juiz Sergio Moro contra Lula “é tecnicamente irrepreensível, fez exame minucioso e irretocável da prova dos autos e vai entrar para a história do Brasil”. Não parece afirmação adequada ao chefe da corte cuja pauta previa a apreciação da sentença em questão.

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567