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Fabrício Ferreira Santos: “Sempre vivi em um motel”

Formado em história, o rapaz ganhou projeção no Twitter com relatos sobre a experiência de morar em um lugar aonde as pessoas só vão para fazer “aquilo”

Por João Batista Jr. - 18 jan 2019, 08h00

Por que decidiu contar suas histórias em uma rede social? Meus amigos já sabiam de alguns casos e se divertem sempre que falo deles. As pessoas têm uma curiosidade natural — afinal, quem mora em motel? Vivo no Holiday desde que nasci, há 23 anos. O negócio foi criado pela minha avó materna. Cansada de apanhar do marido, ela juntou uns trocos de feira e padaria, foi até a rodoviária de Curitiba, onde morava, e pegou um ônibus para o destino mais distante que poderia pagar — Belém do Pará. Aqui, construiu o motel onde vivemos. Cansei de entrar pela recepção usando uniforme e mochila da escola.

Qual é o horário de pico? No pós-bala­da, na madrugada, é quando vão os casais mais jovens. Mas a demanda maior se dá no horário do almoço e no pós-expediente, quando as pessoas vão pular a cerca. Há desde amantes frequentes, que aparecem quatro vezes por semana, até os esporádicos. Um cliente costumeiro faz o que tem de fazer com a amante e, no final, pede comida e manda embrulhar para levar para casa — suponho que para a esposa.

Já escutou barulhos estranhos? Sei distinguir gemidos variados, muitos deles falsos. Algumas prostitutas faziam muito escândalo, então minha avó proibiu exageros. Há cenas tristes, de caras que batem nas mulheres e quebram todo o quarto.

Qual foi a experiência mais marcante de sua vida no motel? Um rapaz sofreu infarto durante o ato com uma amante, que também era sua comadre. Ela, então, pediu que o levássemos ao hospital, mas informou que a esposa não poderia nem sonhar com a traição. Nós o levamos ao ambulatório, mas o homem não resistiu. Jamais soube se a viúva descobriu tudo.

A clientela costuma ser gentil? Alguns casais de amantes ficam íntimos das camareiras: dão cestas de fim de ano e trazem suvenires quando viajam para fora do Brasil. Há surpresas dentro da equipe também. Uma funcionária, muito religiosa, guardava na gaveta brinquedos eróticos esquecidos pelos clientes.

Uma pergunta indiscreta: já namorou no próprio motel? Não. Quando preciso de um motel, vou à concorrência. Não conseguiria fazer nada ali, sabendo que conheço todo mundo.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2019, edição nº 2618

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