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Espelhos do homem

Em novo livro, o sociólogo e urbanista R. Sennett faz nstigante exame sobre a mais incrível invenção humana — a cidade — e os desafios de seu planejamento

Por Eduardo Wolf - 20 jul 2018, 06h00

Como devemos viver? Essa pergunta caracteriza, desde suas remotas origens gregas, aquela área da filosofia batizada de ética. Uma interrogação poderosa, pois engloba um questionamento sobre nossa felicidade pessoal; sobre o que nos faz realizar um bom plano de vida e desenvolver nossas capacidades; sobre como devemos agir e nos relacionar com os demais seres humanos. Agora, imagine a indagação transposta à vida que todos compartilham com milhares, milhões de indivíduos no mesmo espaço geográfico — a cidade. Como devemos viver na cidade? Essa dúvida tem norteado a melhor reflexão do urbanismo contemporâneo, e é ela que está na base do excelente Construir e Habitar — Ética para uma Cidade Aberta, do sociólogo, historiador e planejador urbano Richard Sennett. Último livro de sua trilogia dedicada ao Homo faber (o primeiro, O Artífice, estuda a artesania; o segundo, Juntos, analisa a cooperação), Construir e Habitar traz seu personagem — o homem dotado de inteligência e instrumentos para criar — para o cenário que é também, provavelmente, sua mais incrível invenção.

‘Construir e Habitar’,  de Richard Sennett (tradução de Clóvis Marques; Record; 378 páginas; 59,90 reais) //Divulgação

Desde Santo Agostinho, no século V, “cidade” designava duas coisas: a Cidade de Deus e a Cidade do Homem. Essa dualidade reaparece nos usos medieval e renascentista das palavras ville (a cidade como um todo) e cité (certo modo de vida num lugar), e é a partir da tensão entre elas que Sennett propõe uma reflexão atual: como se relacionam as construções, as ruas, as estruturas da cidade com as práticas, os valores e as demandas daqueles que a habitam? É este, diz o autor, o dilema enfrentado pelo planejador urbano: deve-se implementar uma visão de sociedade à cidade, planejando-a para que transforme as relações sociais? Ou, ao contrário, o urbanismo nada deveria fazer além de espelhar na cidade a sociedade tal como ela é?

Se o leitor imagina que essa é só uma questão teórica, engana-se. No vasto e erudito panorama do urbanismo que Sennett traça, não faltam exemplos da força que a ville — a cidade construída — pode ter sobre a cité — o palco do modo de vida humano. Os primeiros planejadores das metrópoles, no início do século XIX, eram sobretudo engenheiros movidos pela missão de transformar a infraestrutura da cidade para solucionar questões de saúde pública, como a fácil propagação de doenças. Da pavimentação com pedras lisas para melhor limpar os excrementos dos cavalos das carruagens à canalização do esgoto, passando pelos primeiros planejamentos de tráfego em lugares como Paris, a cidade construída transformava as relações humanas: devem-se a essas mudanças físicas tanto o prazeroso e intelectualmente estimulante ambiente dos cafés de rua quanto a trivial prática de não mais aliviar necessidades fisiológicas em público.

Três figuras instigantes examinadas por Sennett pertencem à geração que, a partir de 1850, transformará a paisagem de algumas das mais marcantes cidades do Ocidente. Imbuídos do desejo de impor certa ordem ao urbanismo, Ildefons Cerdà, com o planejamento de Barcelona, o barão Haussmann, com a grande reforma de Paris e a criação de seus bulevares, e Frederick Law Olmsted, com a construção do Central Park de Nova York, realizaram seus experimentos na tentativa de unir o construído e o vivido. Mesmo a geração visionária que fez os arejados passeios parisienses ou o icônico parque nova-iorquino, porém, se viu desafiada pela tortuosa relação do homem com o espaço urbano. Haussmann mirou no esvaziamento das turbas que se revoltavam violentamente em Paris, mas acabou criando o espaço da vida burguesa para as multidões. Olmsted imaginava que o Central Park integraria socialmente classes e etnias — resultado bem diverso do que se vê na vizinhança do parque.

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Cidade fantasma - Prédios abandonados na China: radical e sem vida Qilai Shen/Bloomberg/Getty Images

Se as tensões entre o construído e o vivido sempre foram incontornáveis, até o século XX se buscava alguma forma de convergência entre uma e outra coisa. Com o modernismo inventivo e incisivo de nomes como Le Corbusier, a tensão dá lugar à negação, e a convergência é substituída pela ruptura. Apegado à ideia de que a “casa é uma máquina de morar”, ressentido com a rua que “nos esgota” e convicto de que existe “um novo tipo de conhecimento da construção à espera da sociedade”, Le Corbusier — uma das grandes influências de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer — será o autor das desoladas paisagens planejadas e desprovidas de senso humano do Plan Voisin, que deveria deitar por terra bairros inteiros da Paris histórica. Esse divórcio entre a experiência vivida e a construção da cidade ecoou ao longo das últimas décadas, alcançando até mesmo a utopia das cidades inteligentes: Songdo, a metrópole tecnológica coreana planejada do zero, ou as cidades chinesas com arranha-céus abandonados e estradas que vão do nada a lugar nenhum, são versões atualizadas do radicalismo que impregnava Le Corbusier.

De Aristóteles a Heidegger, os filósofos comparecem à análise de Sennett não como ilustrações, mas para verdadeiramente ajudar na compreensão do viver juntos que é a cidade. Recorrendo às suas memórias como planejador urbano, a amplo acervo da literatura universal e aos clássicos do pensamento social, Sennett não nos oferece uma lista de deveres para a boa vida na cidade. Antes, como um bom Sócrates do urbanismo, nos provoca com a pergunta fundamental: afinal, em que cidade queremos viver?

Publicado em VEJA de 25 de julho de 2018, edição nº 2592

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