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Era uma vez um bônus

O Brasil passou meio século desfrutando o perfil demográfico ideal para um país que quer enriquecer e se desenvolver. Não soube aproveitar a chance

Pelo menos uma vez na história, todos os países passam por um período especialmente favorável ao desenvolvimento, em que a parcela da população economicamente ativa, com idade para trabalhar, entre 20 e 64 anos, cresce mais rapidamente do que a fatia dos idosos e crianças, que não se sustentam sozinhos. A esse intervalo positivo de tempo, que dura por volta de cinquenta anos, dá-se o nome de bônus demográfico. Com mais gente dentro do que fora do mercado de trabalho, gera-se riqueza e fica mais fácil promover a educação, a saúde e a qualidade de vida. Bem administrado, o bônus demográfico é a porta de entrada para o mundo desenvolvido. Mal aproveitado, é a perda de uma chance de ouro para saltar de patamar. O Brasil, infelizmente, a perdeu.

A janela brasileira se abriu em 1970 e se fecharia em 2023, ou seja, já era um prazo apertado para virar uma mesa abarrotada de problemas. Agora, uma revisão de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levou especialistas à suspeita de que o bônus pode ter começado a se fechar já em 2018. Ou seja: pela primeira vez, o contingente de brasileiros aptos para o trabalho vai crescer em ritmo mais lento que o da população em geral.

Isso significa que o Brasil continua tendo muito a fazer, só que em condições bem mais desfavoráveis. Não é impossível avançar, mas o país terá de encontrar caminhos para fazer mais com menos gente produtiva (veja a coluna de André Lahóz Mendonça de Barros). “A desaceleração do aumento da população ativa é um sinal de que a demografia brasileira, que antes ajudava, agora começa a atrapalhar o setor econômico”, afirma Samuel Pessoa, doutor em economia e professor da Fundação Getulio Vargas no Rio. Juntem-se à receita as previsões de que as mulheres terão cada vez menos filhos (de 1,77, em 2018, a média cairá para 1,66, em 2060); a proporção de idosos na população vai quase triplicar no período, saltando de 9,2% para 25,5%; e o contingente afeito ao trabalho cairá de 69,4% para 59,8% — e está pronto o bolo indigesto de um país que envelheceu antes de ficar rico.

LIÇÃO FEITA –  Coreia do Sul: educação de qualidade e bônus bem aproveitado

LIÇÃO FEITA –  Coreia do Sul: educação de qualidade e bônus bem aproveitado (Chung Sung-Jun/Getty Images)

Ninguém sabe o exato momento em que o bônus demográfico vai se fechar por completo. Economistas e demógrafos têm opiniões distintas. Para Pessoa e seus colegas, o fechamento acontece em 2018, porque, a partir do momento em que o contingente da população ativa começa a crescer em ritmo menor que o da população em geral, entra em operação uma engrenagem que não tem mais volta, é irreversível.

Já do ponto de vista dos demógrafos, que se debruçam nas estatísticas com outro olhar, o bônus tecnicamente só acaba quando o tamanho da população ativa começa a diminuir, fenômeno previsto para acontecer, segundo eles, em 2037. A diferença de mais de uma década nos cálculos de economistas e demógrafos se deve aos conceitos distintos de “população ativa”. Os economistas preferem a faixa etária dos 20 aos 64 anos, mais realista em termos de geração de renda. Os demógrafos trabalham com a faixa dos 15 aos 64 anos.

DEPENDÊNCIA –  O avanço dos idosos: o rombo na Previdência deve mais que duplicar em dez anos

DEPENDÊNCIA –  O avanço dos idosos: o rombo na Previdência deve mais que duplicar em dez anos (//VEJA)

Diante da situação atual do país, porém, as diferenças nas projeções viraram uma questão de semântica. “O bônus não fechou, mas começa a se fechar. Na prática, no entanto, já jogamos a oportunidade fora. Não há como o Brasil se beneficiar dele com desemprego tão alto e a economia sem perspectiva de melhorar tão cedo”, diz o demógrafo José Eustáquio Diniz, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. O número de brasileiros sem trabalho está em 65,6 milhões, recorde da série iniciada em 2012, quando eram 60,7 milhões. É menos dinheiro girando para cobrir o rombo da Previdência, que está em 270 bilhões de reais em 2017 e deve mais que duplicar, para 700 bilhões, em dez anos.

Mais cedo ou mais tarde, o bônus demográfico acaba em toda parte. Quem faz a lição de casa aproveita o intervalo para melhorar as condições de vida da população e investir pesadamente em educação, um ingrediente vital para o desenvolvimento. O resultado é um salto de produtividade que, quando o bônus se for, compensará a presença menor de pessoas aptas ao trabalho na população em geral. Na Coreia do Sul, cujo bônus demográfico se abriu por volta de 1970, uma vasta reforma do sistema educacional culminou com 100% dos jovens no ensino médio e 80% avançando para a universidade. O Brasil tem 66% dos adolescentes no ensino médio, e destes mais da metade não se forma. Conclusão: enquanto a produtividade sul-coreana dispara 7% ao ano, a brasileira não chega a 1%. Em outra medida de progresso, o Índice de Desenvolvimento Humano (de 0 a 1), o país desperdiçou sua vantagem demográfica estacionado em 0,7. “Todas as nações que passam de 0,9 aproveitaram bem o bônus”, afirma Diniz. O Brasil agora terá de navegar para o futuro com os ventos demográficos soprando contra.

Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2018, edição nº 2594