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Eleições: olho no Congresso

Sem bons parlamentares, não adianta apostar em novo presidente

Por Sérgio Lazzarini 10 ago 2018, 07h00

Quem se lembra dos nomes em que votou para deputado ou senador em 2014? Muita gente agora só defende seu candidato preferido à Presidência ou ao governo estadual, mas se esquece de que serão os parlamentares, no fim, que terão o poder de aprovar medidas para o bem ou para o mal. E vários deles centram seus esforços na reeleição como forma de blindar-se contra os processos da Lava-Jato. A boa notícia é que, segundo estudos, denúncias de desvios reduzem a chance de um parlamentar reeleger-se. A má notícia é que esse efeito é neutralizado com dinheiro de propaganda eleitoral. Com peças caríssimas embelezando os candidatos, não há Lava-­Jato que dê conta de renovar o sistema político. E, nesse sentido, a concentração de dinheiro de campanha em alguns poucos partidos dominantes provavelmente tornará a renovação política muito, muito difícil.

Para atenuar a maquiagem da propaganda eleitoral, é fundamental que o eleitor procure informar-se com fatos e números. Hoje, já existem aplicativos que permitem checar rapidamente a ficha corrida do político. Páginas na internet fazem a pontuação dos candidatos com base no seu desempenho parlamentar e até oferecem mecanismos para facilitar a busca por políticos com atributos mais desejáveis pelo eleitor. Mesmo no caso de novos candidatos, sem experiência, uma simples pesquisa nas redes permite obter inúmeras informações sobre seu passado e suas ideias (tomando-se a devida cautela em checar notícias falsas e acusações sem lastro). Não há mais desculpa para não investir um pouco de tempo na escolha informada do candidato.

Um cuidado importante é observar o desempenho do político para além de sua ficha suja. A corrupção está longe de ser o único problema do Brasil; igualmente importante é nossa crônica indisciplina com os gastos públicos. Nenhuma reforma será aprovada sem legisladores responsáveis. Às vésperas do (pouco merecido) recesso parlamentar, em plena crise fiscal, os congressistas aprovaram medidas que autorizaram aumento salarial para o funcionalismo público, isenção de impostos para transportadoras, benefícios fiscais para empresas de refrigerantes e montadoras, só para citar algumas. O Congresso é desproporcionalmente representado por esses interesses. Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo mostrou que mais da metade dos deputados federais tem histórico de defesa de propostas que beneficiam funcionários públicos, ainda que a maioria da população brasileira trabalhe no setor privado. Por certo, faz parte da democracia a defesa de interesses. O eleitor, porém, precisa estar plenamente consciente dos interesses que seu candidato vai defender. Com políticos perdulários, o cidadão paga mais imposto para bancar gastos que privilegiam poucos e travam a retomada do crescimento econômico.

Virou moda dizer que não precisamos de um salvador da pátria. Errado. Precisamos de muitos. Centenas no Congresso e nas várias Assembleias Legislativas. Quem serão eles dependerá inteiramente da qualidade de nossas escolhas em outubro.

Publicado em VEJA de 15 de agosto de 2018, edição nº 2595

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