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Ele tem muita pressa

A fulminante explosão do francês Mbappé, de 19 anos, o transformou no grande personagem da competição até as quartas de final

Por Alexandre Salvador, de Kazan - 6 jul 2018, 06h00
VEJA/VEJA

Um imenso painel instalado em frente ao estádio de Saint-Denis, na periferia de Paris, diz o seguinte: “1998 foi um grande ano para o futebol francês”. A peça publicitária de uma marca esportiva, ao celebrar o ano em que a França foi campeã do mundo, soaria como uma mera banalidade, não fosse pela sacada que vem depois do ponto: “Foi quando Kylian nasceu”. Kylian Mbappé Lottin, ou apenas Mbappé (lê-se “embapê”), nasceu em 20 de dezembro de 1998, cinco meses após a conquista francesa, filho de mãe argelina e pai camaronense. Ele começou a Copa da Rússia com 19 anos, 5 meses e 25 dias. Contra o Peru, aos 19 anos, 6 meses e 1 dia, passou a ser o jogador francês mais jovem a marcar num Mundial. Depois, aos 19 anos, 6 meses e 10 dias, fez história.

Atropelou a Argentina na vitória por 4 a 3 — marcou dois gols, e marcar dois gols numa mesma partida de Copa, com menos de 20 anos, só Pelé. Bem, Pelé fez isso duas vezes (anotou três na semifinal de 1958, contra a França, e dois na final, contra a Suécia). O Rei, por meio de sua conta no Twitter, deu aval às comparações (leia o quadro ao lado) e brincou: “Marcar dois gols em uma partida da Copa te coloca em boa companhia. Boa sorte no resto da competição, exceto contra o Brasil”.

O extraordinário, e só Copas do Mundo alimentam situações tão mágicas, é que Mbappé agora é verbete de enciclopédia — independentemente do resultado das quartas de final, contra o Uruguai de Suárez e Cavani —, em decorrência do que apresentou aos 10 minutos do jogo contra a Argentina. Naquele instante, ele rasgou o gramado na diagonal, a bola levemente à frente de seus pés, rápido como não sei o quê, até ser derrubado na área. Pênalti, e gol de Griezmann, 1 a 0. Correu a 37 quilômetros por hora. É um espanto. O jamaicano Usain Bolt fez 44 quilômetros por hora ao bater o recorde mundial dos 100 metros rasos, e olhe que não chutava coisa alguma naquele estirão fenomenal. O “37” colou imediatamente como um número associado a Mbappé, que já é comparado a outro craque brasileiro, Ronaldo, o Fenômeno, dada a velocidade imparável. Com uma ressalva, segundo o treinador da França, Didier Deschamps, que enfrentou Ronaldo dezenas de vezes: “Mbappé vai mais rápido, mas precisa de mais espaço”. A correria de Mbappé resultou, é claro, em uma sucessão de memes — no melhor deles, o francês dispara tendo a seu lado, célere, seu companheiro de PSG, Neymar, rolando sem parar, uma, duas, 423 vezes pelo campo.

A vitrine da Rússia pôs Mbappé em novo patamar, mas ele não é uma surpresa que tenha brotado do nada, como Pelé em 1958. Em agosto do ano passado, logo depois da transferência de Neymar para o PSG por impressionantes 222 milhões de euros, o time francês do xeque do Catar anunciou a contratação de Mbappé, a grande revelação do Mônaco na temporada anterior. O valor, não confirmado: 200 milhões de euros. Os dois são os jogadores mais caros de todos os tempos. Mas, ao contrário do que aconteceu com o brasileiro, o atacante francês foi levado por empréstimo. Mera formalidade com o Fisco. Por já terem gastado demais (e querendo fugir das regras de fair play financeiro da Uefa, a federação europeia de futebol), os dirigentes não puderam desembolsar o caminhão de dinheiro para contratar Mbappé em definitivo. Ao que tudo indica, fizeram um negócio da china.

Mbappé, tal qual Neymar, foi preparado para o sucesso desde a infância — ainda menino, posou com Thierry Henry, campeão de 1998, a quem tomava como espelho, e com Cristiano Ronaldo, cujas fotos decoravam seu quarto. De família modesta, tinha 7 anos quando cidades ao redor da sua, Bondy, explodiram em protestos ao longo de três semanas incandescentes de 2005, depois que dois adolescentes morreram eletrocutados ao tocar uma cerca elétrica, fugindo da polícia. Amigos de seus amigos estavam na confusão, e ele bem poderia ter sido um deles, não fosse tão criança. A trajetória pessoal e profissional de Mbappé está fadada a marcar o futebol mundial, a começar pelo que ele já fez na Rússia. Como dizem os franceses, numa brincadeira repetida à exaustão na internet, para mostrar que ele, sozinho, é toda uma revolução: “Liberté, egalité, Mbappé”.

Publicado em VEJA de 11 de julho de 2018, edição nº 2590

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