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Decolagem interrompida

Após onze anos de tentativas frustradas, Google cancela empreitada que tinha o ambicioso objetivo de incentivar empresas a enviar sondas para pousar na Lua

Por André Lopes Atualizado em 30 jul 2020, 20h28 - Publicado em 2 fev 2018, 06h00

Quando o astronauta americano Neil Armstrong (1930-2012) se tornou o primeiro homem a pisar na Lua, em 20 de julho de 1969, a expectativa era que o portento histórico serviria de ignição para uma grande colonização do cosmo. No entanto, quase cinco décadas depois, apenas outras onze pessoas, todas americanas, caminharam pelo satélite terrestre. A derradeira, há 45 anos. Na última década, porém, voltou-se a cultivar a ideia de repetir a façanha. A iniciativa agora seria protagonizada por empresas, possivelmente de várias nações, em esforços combinados — e não mais pelo governo dos EUA. O ambicioso projeto atendia pelo nome de Lunar XPrize e era patrocinado pelo Google, com o apoio de empreendedores do porte do sul-africano Elon Musk, dono da companhia espacial SpaceX. O Lunar consistia em uma premiação que daria 20 milhões de dólares à startup que enviasse uma sonda à Lua. Caso isso ocorresse, seria a primeira vez que o setor privado alcançaria tal proeza. A missão serviria de base para que, na sequência, alguma empresa fizesse a 13ª pessoa pisar em solo lunar. Contudo, no último dia 23, um balde de água fria foi jogado nesses sonhos, digamos, galácticos.

Com uma justificativa para lá de desanimadora, os organizadores do Lunar XPrize anunciaram o cancelamento da premiação. Isso porque, nos onze anos que se passaram, desde que a contenda foi proposta, nenhuma das 29 companhias participantes — incluindo uma brasileira — conseguiu cumprir as exigências necessárias para realizar a empreitada. De início, a promessa era lançar um foguete em 2012. Quando chegou a data, puxou-se o freio, com o anúncio de que nenhum time estava próximo disso. O prazo foi estendido para 2015, depois para 2016, 2017 e, recentemente, para março deste ano. Das 29 equipes que se candidataram, de catorze países, haviam sobrado cinco. Diante de todas as dificuldades, a diretora do Lunar, a americana Chanda Gonzales-Mowrer, declarou a VEJA: “Não é fácil ser o primeiro a realizar algo tão ousado, e é de esperar que existam percalços. Depois de chegarmos lá, ninguém se lembrará desses problemas, apenas da glória”.

Mas não haverá glória. A apenas dois meses do novo prazo para o fim da disputa, novamente nenhuma das empresas aparentava estar perto de cumprir a meta. A japonesa Team Hakuto chegou a desembolsar 90 milhões de dólares — mais que o quádruplo do que ganharia na premiação, caso saísse vencedora — em sua disputa para atingir o objetivo. Ao avisarem que não estenderiam os prazos e, por isso, o Lunar seria cancelado, os organizadores tentaram transmitir uma visão positiva: “A vitória simbólica provocou uma conversa que mudou os limites sobre a exploração espacial e quem pode pousar na Lua”. Realmente, constatou-se que a tarefa não era tão fácil quanto se imaginava.

A Team Hakuto, a Indus (da Índia) e a SpaceIL (Israel) prometem continuar trabalhando, apesar do fim do Lunar. Só que agora, após tantos atrasos, a credibilidade das companhias está comprometida. Ao menos por enquanto, a iniciativa privada deve se contentar em fomentar missões mais simples, do ponto de vista científico, como o lançamento de satélites e de foguetes rumo à Estação Espacial Internacional — tarefas que já criaram um mercado de mais de 300 bilhões de dólares anuais, no qual se destacam empresas como a SpaceX e a Blue Origin, esta de propriedade do homem mais rico do mundo, o americano Jeff Bezos, criador da Amazon.

Ao que tudo indica, metas mais ambiciosas, como chegar ao satélite da Terra ou constituir uma colônia em Marte — projeto que os EUA pretendem concretizar nos anos 2030 —, ainda serão incumbência de governos e de cientistas, que não têm de se preocupar com o lucro. Afinal, nesses casos, os da chamada “ciência pura”, as despesas costumam ser bem maiores que o faturamento — e o déficit, na casa dos bilhões de dólares. Aos entusiastas da exploração espacial, a boa notícia é que o presidente americano Donald Trump já sinalizou que deve revelar, em março, o orçamento para levar o homem até Marte, em 2030.


A corrida pelos maiores foguetes

Da mesma célebre plataforma de lançamento em Cabo Canaveral, na Flórida, da qual decolou o Saturn V — o foguete que, em 1969, levou o homem à Lua pela primeira vez — deve zarpar, na terça-feira 6, uma nave cujo feito tem o intuito de também entrar para os livros de história, ainda que sem o mesmo destaque. De lá partirá o Falcon Heavy, fabricado pela SpaceX, empresa de projetos espaciais do empreendedor sul-africano Elon Musk, pronto para se tornar o maior exemplar de sua categoria em atividade. Com 70 metros de altura e 27 motores — cujas forças combinadas equivalem à propulsão do somatório de dezoito aviões 747 —, o foguete de Musk, se de fato alçar voo, entrará para a galeria de naves cósmicas como a mais potente já construída.

Do ponto de vista tecnológico­-científico, o Falcon Heavy se assemelha ao Saturn V, criado em 1967. Contudo, ele será capaz de transportar uma carga de 64 toneladas, o dobro do que carrega o atual campeão, o Delta IV Heavy, da Boeing e Lockheed Martin. Em sua estreia, no entanto, o Falcon Heavy levará uma bagagem leve, e marqueteira: um carro elétrico da Tesla, também de Musk. O Saturn V, é quase desnecessário lembrar, transportava três tripulantes — Neil Armstrong, Michael Collins e “Buzz” Aldrin.

O objetivo maior do show programado para o foguete da SpaceX é mostrar que o setor privado é capaz de realizar, sim, as viagens espaciais que se esperam daqui para a frente. Diversas companhias americanas disputam contratos governamentais milionários para o envio de satélites à órbita da Terra — a Força Aérea dos Estados Unidos já garantiu a Musk quatro lançamentos ligados a missões militares sigilosas. O maior atrativo dessas empresas é o preço. Comparado com o custo de um lançamento da Nasa, o do Falcon Heavy é 910 milhões de dólares mais baixo. Uma vez que tal negócio envolve um mercado de cifras bilionárias, não surpreende que nessa corrida esteja presente o homem mais rico do mundo, o americano Jeff Bezos, dono da Amazon e da Blue Origin, rival da SpaceX — que promete, para 2020, superar o novo foguete de Musk.


Publicado em VEJA de 7 de fevereiro de 2018, edição nº 2568

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