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Corrupção, não podridão

Deflagração da Operação Carne Fraca, divulgada com espalhafato pela Polícia Federal, rendeu enorme repercussão no Brasil e no mundo

A notícia era de embrulhar o estômago: frigoríficos pagavam a fiscais do Ministério da Agricultura para que acobertassem falhas graves na qualidade da carne vendida no país. Aditivos cancerígenos, papelão e partes nada nobres dos animais eram supostamente misturados aos produtos colocados nas prateleiras dos supermercados. A deflagração da Operação Carne Fraca, divulgada com tremendo espalhafato pela Polícia Federal, rendeu, em março, enorme repercussão no Brasil e no mundo. Consumidores fizeram boicote às empresas citadas na investigação. Além dessa repulsa inicial, os produtores nacionais sofreram a ameaça do embargo dos países importadores. Os efeitos seriam trágicos: o Brasil é o maior vendedor de carnes bovina e avícola do mundo, com uma receita anual superior a 10 bilhões de dólares. Daí o susto quando mais de vinte países chegaram a impor barreiras aos frigoríficos nacionais. O governo e os exportadores reagiram, num esforço diplomático e de esclarecimento da opinião pública. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, visitou instalações, inspecionou mercadorias e esforçou-se para esclarecer que, apesar de certas falhas e da corrupção de alguns fiscais, os frigoríficos voltados para o mercado externo são modernos e cumprem as exigências internacionais. A reação foi bem-sucedida: todos os parceiros comerciais relevantes desfizeram o embargo. Apenas três pequenos países ainda mantêm restrições às carnes brasileiras: Santa Lúcia, Trinidad e Tobago e Zimbábue. Os relatos mais absurdos, entre eles o de que papelão vinha sendo misturado à carne, não eram regra, como ficou comprovado — e não passaram de um exagero irresponsável dos agentes da Polícia Federal. Mas os achaques dos fiscais sanitários e o elo entre partidos e frigoríficos perduram e representam a rotina do segmento de carnes brasileiro. Há pouco, um funcionário da JBS, líder do setor, admitiu que pagava recorrentemente propina ao ex-superintendente do Ministério da Agricultura Daniel Gonçalves Filho e a políticos do PMDB.

Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562

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