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Conflito de gerações

O depoimento de Zuckerberg em Washington demonstra o abissal desconhecimento dos mais velhos sobre as regras do jogo de privacidade e liberdade no Facebook

“Quase me sinto mal por Zuckerberg. Não tem jeito de ele ter saído daquele salão cheio de idosos sem ter tido de conectar o wi-fi deles.” A tirada do comediante Stephen Colbert, apresentador do The Late Show, um dos programas de maior sucesso da televisão americana, traduz à perfeição o que foram as duas tardes de depoimento de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, aos congressistas de Washington, na terça-feira 10 e na quarta-feira 11. Houve um evidente choque de gerações entre o executivo, de 33 anos, e um grupo de parlamentares cuja idade média ultrapassava os 60 anos — não que os mais velhos não possam ter cabeça juvenil e os quase adolescentes, posturas bem antiquadas. É muito comum que seja assim. Mas o fosso era abissal, e o desconhecimento das autoridades sobre o novo mundo das redes sociais, este no qual vivemos, quase assustador.

O ápice desse desencontro foi uma pergunta do senador republicano Orrin Hatch, de 84 anos. “Como o senhor sustenta seu modelo de negócios se os usuários não pagam pelos serviços?” Zuckerberg, de terno e gravata azuis, sem seu tradicional conjunto de moletom, camiseta, tênis e blusa de capuz, deu uma risadinha. Talvez imaginasse ser uma piada. Quando teve certeza de não ser o caso, espantou-se e respondeu: “Senador, temos anúncios”. Se boa parte dos arguidores era incapaz de saber o funcionamento do Facebook, no básico do básico de seu modelo de negócios, para que mesmo serviria a convocação?

Naquele ambiente de tanto descompasso, quase se esqueceu o que Zuckerberg fora fazer em Washington — e não era pouca coisa. Tratava-se de pôr na mesa uma discussão fundamental, a busca de um ponto de equilíbrio entre privacidade e liberdade.

Cabe relembrar: o executivo nerd foi convocado para prestar esclarecimentos sobre o mau uso dos dados de 87 milhões de usuários — incluindo 433 000 brasileiros e, segundo Zuckerberg, ele mesmo. As informações pessoais foram mineradas pela consultoria inglesa Cambridge Analytica para influenciar as eleições presidenciais americanas, em 2016, com o objetivo de beneficiar Donald Trump. E esse era só o mais destacado entre os tópicos polêmicos que pressionavam Zuckerberg. Dois outros nós: a Cambridge se apoiou nas informações coletadas para manipular ingleses em favor da aprovação do Brexit — a saída da Inglaterra da União Europeia; e empresas-fantasma da Rússia, provavelmente sob o comando do governo daquele país, abusaram do site para espalhar fake news e outros conteúdos que beneficiassem… Trump.

Zuckerberg, que não é bobo nem nada, saiu-se muito bem, inclusive quando submetido a questões mais sérias, como as do vazamento de dados para posterior uso eleitoral. Mas soltou frases de uma ingenuidade constrangedora, ou de desfaçatez dissimulada. “É praticamente impossível começar uma companhia em um dormitório universitário e fazê-la crescer para a escala em que está sem cometer falhas”, disse. Assim funciona o mundo dos negócios — quando uma empresa ainda cabe num dormitório estudantil, as responsabilidades sobre ela são mesmo modestas, administráveis. Mas, quando seu valor de mercado atinge 485 bilhões de dólares, ela deixa de ser coisa de amadores e os obstáculos só aumentam. O Facebook ganhou a batalha em Washington (nas cinco primeiras horas do depoimento, a empresa ficou 27 bilhões de dólares mais rica, com as ações valorizadas na bolsa). Ganhou diante da ineficácia dos políticos, porque esse novo mundo não é mesmo coisa simples, mas nada que o dispense das respostas que precisam ser dadas.

Todo mundo que usa o Facebook diariamente — e são 1,4 bilhão de pessoas — sabe que cede informações pessoais em troca do serviço gratuito. É a regra do jogo. Mas foi combinado que os dados confiados seriam usados de modo transparente, quase sempre para vender produtos, mas não para engrossar o caldo de campanhas eleitorais. A inércia da turma de Zuckerberg traz riscos. Nas palavras do deputado republicano Billy Long, 62 anos, olhos nos olhos de Zuckerberg: “O Congresso não faz nada ou exagera. Você precisa dar um jeito nesse rolo”. E, se o jeito não for dado, segundo o senador Dan Sullivan,  53 anos, também republicano, uma saída pode ser “regular ou dividir a empresa”. Esse filme já passou sucessivas vezes na história do capitalismo americano.

Publicado em VEJA de 18 de abril de 2018, edição nº 2578