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Concentrou mais

A retomada mundial e a valorização dos ativos multiplicam número de milionários no mundo, mas o 1% no topo da pirâmide agora detém metade da riqueza global

Por Marcelo Sakate - 17 nov 2017, 06h00
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A tendência global de concentração de riqueza, que teve início nos anos seguintes à crise financeira de 2008, continua em marcha. De acordo com os dados mais recentes, um total de 36 milhões de pessoas, ou 0,7% da população mundial, possui um patrimônio financeiro superior a 1 milhão de dólares. Esse grupo sozinho detém 45,9% da riqueza do planeta. Enquanto isso, os 3,5 bilhões de adultos na base da pirâmide, cujo patrimônio é inferior a 10 000 dólares, possuem menos de 3% da riqueza total. A boa notícia é que nunca houve tantos milionários, graças sobretudo ao crescimento de países asiáticos.

Os números constam do mais recente estudo do banco suíço Credit Suisse sobre o tema. Conceituado, o estudo soma o valor dos chamados ativos financeiros (como aplicações em fundos de investimento e em ações de empresas na bolsa) e não financeiros (como imóveis) e subtrai as dívidas. O boom dos milionários foi resultado da acentuada alta nos preços de ativos financeiros, em especial de ações. Uma década atrás, o grupo formado pelo 1% mais rico possuía uma fortuna equivalente a 42,5% do total mundial. Hoje, detém 50,1% do total.

Cada vez mais concentrada, a riqueza só tem sido mais democrática em termos geográficos, graças ao acelerado crescimento de economias emergentes. Na China, comunista na política e capitalista na economia, dobrou o número de pessoas com esse patrimônio desde 2011, e o país já é o quinto da lista, atrás de Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Alemanha. Na Índia, existem 245 000 adultos com mais de 1 milhão de dólares, e o grupo dos afortunados deve crescer 52% até 2022, de acordo com projeções do Credit Suisse. O Brasil, no entanto, ainda paga o preço da crise econômica prolongada: o número de milionários caiu 5% na passagem de 2016 para 2017, para um total de 164 000 pessoas. Ficamos em 19º lugar no ranking global, mas o fim do ciclo recessivo deve fazer praticamente dobrar esse universo no próximo quinquênio. De acordo com projeções, serão 296 000 pessoas com patrimônio superior a 1 milhão de dólares em 2022, um salto de 81%. Se a previsão se confirmar, será a maior taxa de crescimento no grupo dos vinte países que mais possuem milionários no mundo. Isso graças à expectativa de forte valorização de ativos no Brasil.

A divulgação de novos dados sobre o desequilíbrio na distribuição global de riqueza reacende o debate sobre como combater a concentração, preocupação que atinge até os milionários americanos. O francês Thomas Piketty propõe a criação de um imposto global sobre fortunas cuja arrecadação seria revertida para a redistribuição de dinheiro entre os mais necessitados. O escocês Angus Deaton, Nobel de Economia em 2015, acha a proposta irrealista. Ele e outros estudiosos defendem a ideia de que as políticas públicas deveriam visar não à redução da desigualdade, mas à elevação do padrão de vida dos mais pobres. Nesse sentido, eles ressaltam que o crescimento econômico se provou, ao longo da história, como a ferramenta mais eficaz existente. A China era menos desigual no passado, mas era muito mais pobre. Tributar os mais ricos pode ajudar, mas dar condições para que os mais pobres prosperem é, sem dúvida, uma maneira incontroversa de reduzir a desigualdade.

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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