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Carta ao Leitor: Um avanço notável

Goste-se ou não das alianças no Congresso ou de sua indicação para o Supremo, o fato é que Bolsonaro se livrou de uma postura que causava instabilidade

Por Da Redação Atualizado em 8 out 2020, 13h51 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Ao contrário dos Estados Unidos, que têm eleições presidenciais ininterruptas desde 1789, a democracia brasileira sofreu dois longos períodos de descontinuidade desde a proclamação da República, em 1889. Na última oportunidade, durante a ditadura militar, foram 29 anos sem que os eleitores pudessem escolher o presidente. A retomada aconteceu em 1989, com a vitória de Fernando Collor de Mello — de lá para cá, houve uma sequência de pleitos sem sobressaltos. Embora tenha demonstrado vigor, ancorado em instituições cada vez mais fortes, o sistema democrático brasileiro, convém lembrar, é jovem — e, portanto, sujeito a retrocessos. Daí a imensa preocupação desde a posse de Jair Bolsonaro. Dono de uma carreira singular, o presidente construiu sua trajetória política numa espécie de bolha, com pouca capacidade de negociação e um discurso voltado para nichos muito específicos, principalmente os militares. Nessa jornada, por diversas vezes, demonstrou desprezo pela democracia e pelas liberdades individuais.

Uma vez no Palácio do Planalto, o presidente infelizmente não surpreendeu positivamente. Por meio de postagens desastradas no Twitter e comentários pouco cautelosos, entrou em conflito com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal com preocupante frequência. Até muito recentemente, fazia do confronto permanente a sua estratégia de negociação, um processo que poderia levar o país a um ponto de ruptura entre as instituições. Para piorar, incentivava uma claque de desajustados que organizavam manifestações pedindo a volta da ditadura e o fechamento do Parlamento e do STF. Numa dessas ocasiões, um desses desvairados soltou fogos de artifício em frente ao tribunal. Uma cena lamentável que, ao lado de outras aberrações, virava rotina em Brasília. Em todos esses momentos, VEJA foi rigorosa, ao registrar tais barbaridades e atropelos em capas, longas reportagens e críticas veementes na Carta ao Leitor. Afinal, a defesa intransigente da democracia e das instituições é parte inegociável da nossa missão e de nossos valores.

Por essa razão, precisamos ser justos agora e saudar de forma efusiva a transformação pela qual o presidente vem passando nos últimos três meses. Goste-se ou não das alianças no Congresso ou de sua indicação para o Supremo, o fato é que Bolsonaro saiu da postura anterior, que causava instabilidade, para o exercício natural da negociação política. Antes, ele fustigava o STF e desprezava a formação de uma maioria no Parlamento. Havia no ar um medo de golpe. Hoje, abre canais de entendimento com ministros do tribunal e senta-se à mesa para negociar com congressistas. Como mostra a reportagem que começa na página 30, sua articulação política foi entregue a profissionais, como o ministro Fábio Faria, os líderes do governo Ricardo Barros e Eduardo Gomes, e o deputado Arthur Lira. Ainda que entre os motivos para tal mudança possa estar o temor de sofrer um impeachment, trata-se de uma evolução bem-vinda e oportuna do presidente. Há muitos desafios pela frente no Brasil — da economia às causas sociais. Saber, ao menos, que a democracia não sofre riscos, que os poderes começam a trabalhar em harmonia, é um alívio e, diante do passado recente, um baita avanço.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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