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Carta ao Leitor: Retórica do caos

A extinção quase completa da civilidade no discurso político é, sem dúvida alguma, um dos resultados mais infelizes da radicalização atual

Na entrevista das Páginas Amarelas desta edição de VEJA, o cientista político José Álvaro Moisés alerta para os riscos de retrocesso na democracia — no Brasil e no mundo — e aborda um tema que anda um tanto obscurecido pelas paixões: a erosão da civilidade no debate político. Diz ele: “Na democracia, o homem público tem responsabilidades, e uma delas é defender a solução pacífica dos conflitos políticos e sociais. Líderes democráticos são responsáveis, ou deveriam ser, pelo clima de entendimento entre os diferentes”. A avaliação veio no momento da entrevista em que Moisés analisava a responsabilidade de Jair Bolsonaro no acirramento da radicalização que domina o ambiente político no país — e cuja expressão mais dramática ocorreu no atentado contra a vida do deputado.

Eis o ponto central: a extinção quase completa da civilidade no discurso político é, sem dúvida alguma, um dos resultados mais infelizes da radicalização atual. Primeiro, porque os efeitos da incivilidade — venha ela na forma de insulto, grosseria ou ameaça — são incontroláveis, como se comprovou no próprio atentado. Segundo, porque a incivilidade é contagiosa como um vírus. Sua capacidade de contaminar todo um ambiente político é enorme. Basta ver no que se transformou o debate público no Brasil. O ex-presidente Lula e o petismo de modo geral abriram a porteira para a demonização desbragada dos adversários, que foram transformados em inimigos. O estímulo ao antagonismo extremo, evidente na oposição entre “nós” e “eles”, simplesmente adoeceu o país.

Pela mesma porteira aberta pelo consórcio Lula-PT entraram Bolsonaro e seus cúmplices, ao barbarizar no vocabulário do insulto e pregar, como se a política fosse a continuação da guerra por outros meios, o extermínio físico do “inimigo”. Quando são denunciados pelo extremismo, recorrem invariavelmente à mesma ladainha: ou foram mal-entendidos ou era só “uma brincadeira”.

O Brasil não está entrando nesse pântano desavisadamente. Nos Estados Unidos, o exemplo atual do presidente Donald Trump é mundialmente conhecido. O líder americano chama imigrantes ilegais de “assassinos” e “estupradores”, xinga jornalistas e adversários políticos de “loucos”, “corruptos”, “fracassados”. Com desprezo pela liturgia moral do cargo que ocupa, abusa de um linguajar chulo que a maioria das famílias não permite que se use à mesa do jantar. Se a política — no Brasil, nos Estados Unidos e em tantos outros países — já se encontra em nível abissal de descrédito, essa retórica sulfúrica reduz mais as chances de que a democracia continue a triunfar. Como adverte Moisés, em sua entrevista publicada nesta edição, “a democracia não é um projeto acabado”.

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2018, edição nº 2600