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Carta ao Leitor: Para entrar na história

O caminho do meio e do bom senso deve sempre prevalecer — é o que se espera de 2021

Por Da Redação Atualizado em 23 dez 2020, 14h38 - Publicado em 24 dez 2020, 06h00

Alguns anos são tão intensos que se tornaram marcos na história da humanidade. Foi assim, por exemplo, com 1968, em que foi “proibido proibir”, a temporada das grandes manifestações de rua, do grito pelos direitos civis e pela liberdade sexual das mulheres. Foi assim em 1989, para ficarmos apenas no século XX, com a avalanche de derrocadas dos países-satélites da União Soviética, depois da queda do Muro de Berlim. Por seu aspecto trágico e pelo impacto gerado na vida de bilhões de pessoas, o ano de 2020 fará parte desse grupo. Ele termina com a triste contagem de mais de 1,7 milhão de mortes em decorrência da Covid-19, quase 190 000 somente no Brasil. Com uma intensidade inédita, a pandemia fez ruir as economias ao pôr populações inteiras dentro de casa, em quarentena. Reinventou também o trabalho, levado a reu­niões por videoconferência, e os relacionamentos, ao forçar o distanciamento social. Em paralelo, a disseminação do novo coronavírus foi o pano de fundo de dois outros movimentos que marcaram os últimos doze meses. O primeiro deles: a violência racista, cujo triste ápice foi o assassinato do negro americano George Floyd, asfixiado pelo joelho de um policial branco, em maio, depois repetido no Brasil, em novembro, com a morte de João Alberto Freitas em um supermercado no Rio Grande do Sul. O segundo grande risco pôs em questão a própria democracia, com o erguer de vozes populistas, que desdenharam vergonhosamente da ciência na luta contra a Covid-19 e desafiaram a escolha popular, como fez Donald Trump até quando pôde nos Estados Unidos.

Mas, vencido 2020, é possível sublinhar, sim, que, apesar de tudo, apesar das mortes, apesar das posturas equivocadas de quem grita até contra a vacinação, há caminhos de esperança. Nos Estados Unidos, a eleição de Joe Biden foi sacramentada. No Brasil, embora a política tenha patinado, com arroubos desnecessários do presidente Jair Bolsonaro, as instituições sobreviveram valentemente — o Executivo, o Legislativo e o Judiciário continuam a cumprir suas missões originais. Parecem ter tomado doses suficientes de vacinas que os imunizaram contra o autoritarismo, a maior ameaça dessa doença desde a reabertura democrática e a Constituição de 1988. Tal equilíbrio, importante ressaltar, será crucial para que o país volte a crescer e gere prosperidade a seus cidadãos. Em sua grande maioria, os brasileiros reafirmaram essa postura ao se afastar nas eleições municipais dos candidatos mais radicais e que navegam no ódio fácil das redes sociais. O caminho do meio e do bom senso deve sempre prevalecer — é o que se espera de 2021, ano que se inicia ainda à sombra da pandemia, mas agora com a luminosa estrada aberta pelo tão aguardado frasco de vacina.

Publicado em VEJA de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719


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