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Carta ao Leitor: Onde está o presidente?

O chefe do Executivo, é lamentável admitir, ignora a importância do respeito à Constituição e despreza a divisão de poderes

Por Da Redação Atualizado em 13 mar 2020, 11h15 - Publicado em 13 mar 2020, 06h00

Recentemente, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que o presidente da República, “embora possa muito, não pode tudo”. A declaração veio a público depois que o atual ocupante do posto, Jair Bolsonaro, divulgou um vídeo de convocação para manifestações contra o Congresso e a própria Corte, em apoio a seu governo, marcadas para este domingo, 15 de março. Segundo Mello, tal atitude evidenciaria “a face sombria de um presidente da República que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de poderes, que demonstra uma visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo que exerce”. Com a repercussão negativa do seu impulso digital, Bolsonaro chegou a recuar. Entretanto, durante a viagem que fez aos Estados Unidos na semana passada, o presidente voltou a defender as manifestações, alegando que elas “não são contra o Congresso nem contra o Judiciário. São a favor do Brasil”. Ato contínuo, numa ação estapafúrdia, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) ecoou o delírio presidencial e utilizou o seu perfil oficial nas redes sociais para defender os protestos. Na quinta-feira à noite, Bolsonaro recuou mais uma vez e pediu a suspensão dos protestos.

Só há um modo de analisar esse quadro: infelizmente, o ministro Celso de Mello está certo. O chefe do Executivo, é lamentável admitir, ignora a importância do respeito à Constituição e despreza a divisão de poderes. Em resumo: não honra as suas funções dentro da República brasileira. Funções para as quais, sublinhe-se, ele foi escolhido em um pleito democrático, limpo, incontestável. Aliás, só ele mesmo tem dúvidas disso. Para ratificar sua pequenez diante da grandeza do cargo, Jair Bolsonaro, na mesma jornada americana, disse que houve fraude nas eleições de 2018, pois, na verdade, teria vencido já no primeiro turno. Questionado sobre tal insanidade, afirmou que tinha provas, mas não as apresentou. A situação mostra-se tão patética que o colunista Ricardo Noblat, de VEJA, pontuou em um de seus comentários no nosso site: “O que fazer então? Anular a eleição que ele ganhou?”.

Diante de tal cenário, uma outra pergunta se impõe: aonde queria chegar o presidente da República? Afinal, essa opção pela política do confronto — em um momento no qual tudo de que o Brasil mais precisa é diálogo, estabilidade e união — aparenta ter o único objetivo de manter a militância mobilizada com vistas às eleições presidenciais de 2022. Em alguma medida, Bolsonaro dá a impressão de acreditar que só poderá contar com apoiadores, reais ou virtuais, num processo de campanha eleitoral permanente (algo absolutamente desnecessário para quem tem os seus índices de aprovação). Com esse comportamento, parece se esquecer de um detalhe bastante relevante: daqui até o próximo pleito, ele tem um país para administrar — com urgências como o ajuste da economia diante dos desafios dos preços do petróleo, do coronavírus e do desemprego. Para o bem do Brasil, está mais do que na hora de o candidato Jair Bolsonaro assumir o posto de presidente da República. Ou pelo menos de parar de atrapalhar o próprio governo.

Publicado em VEJA de 18 de março de 2020, edição nº 2678

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