Carta ao Leitor: O veneno do radicalismo

Chama atenção que os políticos brasileiros tenha reagido com tamanha leveza ao atentado a tiros contra o acampamento em favor do ex-presidente Lula

Por Da Redação - 4 maio 2018, 06h00

Com um talento inigualável para tomar sistematicamente o caminho errado, o grosso dos políticos brasileiros parece cada vez mais alheio à realidade. Chama atenção que tenha reagido com tamanha leveza à notícia de que houve um atentado a tiros contra o acampamento em favor do ex-presidente Lula montado nas cercanias de sua prisão, em Curitiba. O crime foi recebido como se fosse um acontecimento desagradável mas não de todo intolerável, uma decorrência apenas incômoda das agruras da vida política, quando, na verdade, é a mais recente expressão de como o veneno do radicalismo vem se espalhando por certos setores da sociedade brasileira.

É evidente que os militantes do PT, agora vítimas de uma ação armada inadmissível, também ocupam a posição de autores de barbaridades, como na recente agressão a um cidadão, em frente ao Instituto Lula, em São Paulo, que acabou hospitalizado com traumatismo craniano. É a mesma expressão da ameaça venenosa do radicalismo, apenas com o sinal ideológico trocado. É espantoso que as autoridades políticas possam imaginar que a reação adequada a esse tipo de ataque violento seja a quase indiferença.

No atual ambiente político brasileiro, é notório que a crítica ao petismo e a seu maior líder acabou gerando, no outro extremo, um bolsonarismo vulgar e regressivo. Nesse contexto radicalizado, “adversários” viram “inimigos” e caem as barreiras que normalmente impedem o avanço de uma ideia malsã — como que inspirada num Herodes mandando matar todos os bebês de Belém — segundo a qual a melhor solução é a eliminação física dos opositores.

Outro sintoma dos males do radicalismo produzido pelo mesmo ambiente de polarização exacerbada está descrito em artigo de J.R. Guzzo, publicado nesta edição. Com sua clareza proverbial, Guzzo encarrega-se de mostrar como a assombração de um golpe militar parece ganhar a simpatia de uma camada de eleitores. É custoso acreditar que um golpe possa parecer uma solução conveniente para um país que passou 21 anos sob regime militar, convivendo com prisões arbitrárias, porões de tortura, censura à imprensa, cassação de mandatos e votos, exílio e assassinatos. Quebrou-se, até, o consenso de que o regime de 1964 consistiu numa ditadura. Há quem creia que era uma modalidade de democracia. Ora, um regime em que opositores, de direita ou de esquerda, não têm direito a voto, nem a voz, nem à liberdade e, em alguns casos, nem mesmo à própria vida, pode ser qualquer coisa, menos uma democracia.

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Publicado em VEJA de 9 de maio de 2018, edição nº 2581

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