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Carta ao Leitor: O novo normal

São inescapáveis as transformações no mundo do trabalho, da medicina e das relações familiares

Por Da Redação - Atualizado em 1 out 2020, 13h53 - Publicado em 2 out 2020, 06h00

Nove meses depois do primeiro caso do novo coronavírus detectado em Wuhan, na China, em 31 de dezembro de 2019, o mundo alcançou, no domingo 27, a triste marca de mais de 1 milhão de mortes. E o Brasil aparece em incômodo segundo lugar em número de óbitos, na casa dos 144 000, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 210 000 fatalidades. Em nenhuma hipótese a terrível estatística pode ser vista com condescendência — não foi, definitivamente, uma “gripezinha”. Trata-se da maior tragédia sanitária em mais de 100 anos, marco doloroso da história da humanidade, inaceitável e indelével. Mas, sim, nas últimas semanas houve claros sinais de alívio — e, com raras exceções (a Índia é a mais notória), a pandemia parece ter chegado a um ponto de recuo. Evidentemente, ainda há muita estrada pela frente, a vacina não foi anunciada e o receio é compreensível. A sociedade, no entanto, começa a andar com otimismo a caminho da normalidade, ansiosa pela necessária e esperada retomada da economia. Ancorados em informações científicas, sempre de máscara e com o devido distanciamento, os cidadãos percebem que já podem recuperar o cotidiano (talvez não como era antes), mas praticando aquilo que nos habituamos a chamar de o “novo normal”, a expressão que virou mantra.

E o que é o “novo normal”? Uma série de três reportagens desta edição, a partir da página 58, mergulha em transformações inescapáveis no mundo do trabalho, da medicina e das relações familiares. As mudanças são visíveis, sobejamente marcantes. Muitas empresas reformularam suas sedes para aumentar o distanciamento entre funcionários, outras adotaram o home office definitivo, algumas aderiram às salas compartilhadas e há até companhias e governos que começaram a testar a semana de quatro dias. Nem sempre o que é bom para certas corporações funcionará para outras, mas a realidade é que o mercado vive intensa revolução. Um estudo feito pela consultoria KPMG com centenas de empresários de todas as regiões do Brasil constatou que mais de um terço dos pesquisados voltará aos escritórios apenas no ano que vem. Detalhe: no retorno, 39% das companhias pretendem diminuir o espaço de suas unidades. Ou seja: muitos profissionais ficarão permanentemente em trabalho remoto. O mesmo fenômeno ajudou a impulsionar a telemedicina, que foi sempre tabu, mas agora ganhou tração. A principal startup do setor no Brasil registrou, entre março e setembro, 1,3 milhão de teleconsultas — até muito recentemente, o recurso era residual, quase inexistente. Em algumas especialidades, como a psicologia, o contato entre médico e paciente pode ter mudado de vez. Mas talvez não haja reviravolta mais saudável, embora difícil de medir com números precisos, do que a ocorrida nos lares, com pais e filhos dividindo o mesmo teto durante tanto tempo. “Ao que tudo indica, a pandemia deixará como legado uma união maior das famílias”, diz Regina Szylit, uma das diretoras da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, que deu a largada a uma pesquisa que se debruça no futuro dos elos familiares depois de tempos tão estranhos. No dia a dia, no trabalho, no zelo com a saúde e dentro de casa, ali onde a vida acontece enquanto fazemos outros planos, os derradeiros meses de 2020 e os próximos anos serão, sem dúvida, diferentes. Apesar de todas as dificuldades, também houve conquistas que precisam ser celebradas, por ser extremamente positivas. É assim que a humanidade evolui: adaptando-se às circunstâncias.

Publicado em VEJA de 7 de outubro de 2020, edição nº 2707

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