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Carta ao Leitor: O caso alemão

A eleição alemã vem sendo chamada de “domingo negro”, mas há um lado luminoso no resultado do pleito: está na vitória da chanceler Angela Merkel

A eleição na Alemanha ocorrida no último domingo, dia 24, disparou ondas de choque no mundo democrático. Ao conquistar quase 13% dos votos, a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) virou a terceira força política no Bundestag, o Parlamento, atrás apenas de dois partidos tradicionais que já fizeram parte do governo. A AfD é uma confederação de grupos extremistas, ultraconservadores, adeptos de teorias conspiratórias e — aí está o maior susto — até neonazistas. Seus integrantes usam linguagem racista, glorificam o papel dos soldados alemães nas duas guerras mundiais e opõem-se à imigração para que não seja conspurcada a pureza da cultura alemã. Desde o fim da II Guerra, a extrema direita não tinha representantes no Bundestag.

Apresentada dessa maneira, a eleição alemã vem sendo chamada de “domingo negro”, mas há um lado luminoso no resultado do pleito: está na vitória da chanceler Angela Merkel, que levou um terço dos votos e agora assume seu quarto mandato. Há dois anos, ao abrir as fronteiras alemãs a mais de 1 milhão de imigrantes, Merkel inflamou os grupos da direita nacionalista e acabou perdendo popularidade mesmo em setores menos radicais. Mas corrigiu a rota, aplicou certas restrições à imigração, sem dar as costas às hordas de desvalidos, e conseguiu virar o jogo, como mostra o resultado das urnas.

Com tudo isso, numa era de extremismo e intolerância, Merkel vem se consolidando como símbolo da estabilidade, da moderação e da dignidade. Ela é hoje a personificação da democracia liberal, da compaixão com imigrantes, da preservação da unidade europeia. Seu comando na Alemanha, menos ideológico e mais pragmático, tem sido uma lufada de ar fresco no coração da Europa. Operando no vácuo deixado pela postura instável e errática do presidente Donald Trump, Merkel tornou-se o porto seguro dos valores ocidentais, dos direitos humanos, da aliança transatlântica, do multilateralismo. Com um líder agressivo de cada lado — Trump em Washington e Putin em Moscou —, Merkel é a força da serenidade e do equilíbrio num mundo hostil.

Assim, o domingo alemão também pode ser saudado como um momento alvissareiro: afinal, 87% dos alemães disseram não à demagogia nacionalista. Enquanto Merkel tenta formar um novo governo, tarefa que não será inteiramente fácil, espera-se que os quase 6 milhões de eleitores que votaram na AfD tenham apenas feito um protesto contra os partidos tradicionais, e não representem uma tendência de promover uma mudança — assustadora — na paisagem ideológica da Alemanha, assunto abordado pela reportagem publicada nas páginas 62 a 64.http://wp.me/p7qnr3-9rtd

Publicado em VEJA de 4 de outubro de 2017, edição nº2550