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Carta ao Leitor: O avanço da ignorância

Por que essas barbaridades vêm ganhando terreno e apoio popular numa era de tanta informação?

Ataques à democracia, recolhimento de livros, campanhas antivacinação, fake news e teorias da conspiração que questionam até a forma arredondada da Terra. Alguns anos atrás, não haveria espaço no país e no mundo para esse tipo de prática ou argumentação. Seus defensores seriam chamados de malucos, autoritários ou simplesmente boçais. Hoje tais insanidades são praticadas sem pudor, à luz do dia, por pessoas que deveriam zelar pelas instituições e por valores elevados, a exemplo do prefeito do Rio de Janeiro, o bispo Marcelo Crivella (PRB), e do filho do presidente da República, o vereador licenciado Carlos Bolsonaro (PSC-RJ). Mas a política é apenas uma das searas desse movimento obscurantista que ganha tração ao redor do globo (sim, guru Olavo de Carvalho, a Terra é redonda). Basta uma leitura superficial na internet ou nos jornais para perceber que o avanço da ignorância e da truculência no planeta é inequívoco. Nos Estados Unidos, a nação mais desenvolvida do mundo, milhares de pais estão deixando de vacinar os filhos motivados por uma passagem da Bíblia que diz “não deves profanar o teu corpo”. Por lá , crescem também os adeptos da teoria de que a Terra é plana, hipótese que o navegador português Fernão de Magalhães derrubou há nada menos que 500 anos.

Afinal, o que está acontecendo? Por que essas barbaridades vêm ganhando terreno e apoio popular numa era de tanta informação? Nesta edição, VEJA publica uma reportagem que procura explicar as razões desse triste fenômeno. De forma resumida, o avanço do obscurantismo deve-se a uma combinação entre o crescimento do conservadorismo, basicamente apoiado nas crenças evangélicas, uma nostalgia difusa de um suposto passado glorioso e a internet, ferramenta fundamental na propagação dessas ideias. Boa parte das pessoas que se norteiam pelo obscurantismo não recorre a fontes confiáveis para formar opinião. Elas acessam a web, ou mais precisamente as redes sociais, para procurar qualquer tipo de site ou perfil que dê razão ao que já imaginavam antes. Todo o resto é conspiração — da mídia, da democracia, da ciência, da Nasa… Por trás de tudo isso, claro, estão políticos, igrejas e organizações que se aproveitam dessa ignorância para manipular, distorcer informações, desacreditar as instituições e obter lucros — políticos ou financeiros.

O quadro é, sem dúvida, preocupante. Ao contrário do senso comum de que evoluímos sempre numa linha reta, a história da humanidade registra diversos momentos de regressão. Conhecimentos sobre arquitetura, por exemplo, ficaram esquecidos por mais de um milênio. Durante o reinado do imperador Augus­to, no século I a.C., o cônsul Marco Agrip­pa encomendou a construção do Panteão em Roma, com seu teto erigido em forma arredondada. Tal obra de engenharia, muito comum nas edificações romanas, só foi repetida em 1436 no domo da Igreja Santa Maria del Fiore, em Florença, por Filip­po Brunelleschi. Entre um fato e outro, a civilização ocidental viveu o período conhecido como Idade das Trevas, quando a Igreja Católica, poder vigente na época, queimava pessoas e censurava o conhecimento. Na história republicana do Brasil, para usar um exemplo mais recente, alternam-se momentos de democracia e ditadura algumas vezes. Portanto, existem esses movimentos pendulares na evolução. Diante do cenário atual, que indica um crescimento dos que apoiam o retrocesso, VEJA reforça junto a você, leitor, o compromisso com a democracia e com a proteção ao Estado democrático de direito, a defesa da ciência e das liberdades individuais. Nós acreditamos nisso e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para a vitória do conhecimento sobre a ignorância. Na nossa visão, o momento atual será apenas um eclipse passageiro na história do Brasil e da humanidade.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2019, edição nº 2652

Comentários

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  1. Cesar Crosara

    Eu fiz um comentário crítico ao texto, e imediatamente, ele foi censurado. Haja liberdade…

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  2. Paulo Bandarra

    Numa época que se acredita que o corpo não representada nada, que se pode escolher o que se quiser, e a imprensa e o judiciário a tornam dógma de fé, o resto é sintoma apenas.

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