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Carta ao Leitor: O almejado alívio final

Não há no mundo atual aventura mais fascinante que a corrida por uma vacina confiável - e o Brasil está na ponta de lança desse processo

Por Da Redação - Atualizado em 10 jul 2020, 15h47 - Publicado em 10 jul 2020, 06h00

É sempre vital relembrar, como retrato da triste e inconcebível realidade, o fato de o Brasil estar em constrangedor segundo lugar no ranking de casos e mortes em decorrência da pandemia do novo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos — são, por aqui, cerca de 1,7 milhão de resultados positivos e quase 70 000 fatalidades. Evidentemente, trata-se de uma tragédia. Não foi, não é e não será uma “gripezinha”, e convém permanentemente analisar o drama para além da frieza estatística. Mas em diferentes ritmos de estado para estado do país já se enxerga alguma estabilização, com queda na quantidade de óbitos e redução das taxas de contágio. Outro ponto favorável: o sistema público de saúde, dada sua capilaridade e organização, está firme e não dá sinais de risco de colapso. As notícias são, portanto, esperançosas e, depois de três meses de quarentena, autorizam alguma flexibilização.

Houve, claro, exageros como a multidão sorridente que tomou uma das ruas do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Mas existiram reações positivas, como a rarefeita ocupação dos restaurantes, que, em São Paulo, já podem funcionar das 11 às 17 horas. Há, enfim, algum otimismo no ar. Depois de intensa redução em abril, as vendas do comércio varejista cresceram 13,9% em maio, na comparação com o mês anterior. Foi a maior alta histórica da pesquisa, deflagrada em janeiro de 2000. O agronegócio também deve terminar o ano com uma safra recorde, outro pilar importante para a recuperação.

Mas nem o anseio pela retomada do cotidiano, nem a necessidade de a economia voltar a andar, nada deve ultrapassar o bom senso determinado pelos protocolos de saúde, que precisam vir sempre em primeiríssimo lugar. É muito provável que milhares de brasileiros ainda sejam contaminados com o vírus, como aconteceu recentemente com o presidente Jair Bolsonaro. Infelizmente, o sonho de liberdade vai conviver durante algum tempo com as perdas diárias, até que se alcance o equilíbrio tão desejado — e a Covid-19 contenha definitivamente seu ímpeto. O país precisa aprender a caminhar nessa corda bamba, e não há outra para pôr os pés no momento. A verdade é que a senha de libertação total virá apenas com o anúncio de uma vacina eficaz. Não há no mundo atual aventura mais fascinante que a corrida por um imunizante confiável. O Brasil, aliás, está na ponta de lança desse processo, como mostra uma reportagem desta edição. Voluntários brasileiros passam por testes em duas das mais promissoras iniciativas, uma delas liderada pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, e a outra desenvolvida pela chinesa Sinovac Biotech.

Os repórteres e editores de VEJA mergulharam na rotina das pessoas que, especialmente no Rio e em São Paulo, participam diretamente dessa engrenagem. “Em comum, são profissionais de saúde que, embora cientes dos riscos, afirmam se sentir no dever de dar essa contribuição à sociedade”, diz a editora Sofia Cerqueira. “É um privilégio e uma sensação de dever cumprido”, resumiu a cirurgiã-dentista Denise Caluta Abranches numa conversa com a repórter Giulia Vidale. Denise foi a primeira voluntária do país no trabalho de Oxford. Trata-se de um empenho comovente, que trará frutos universais e, para nós brasileiros, poderá representar benefícios específicos — nações mais atuantes no desenvolvimento de uma vacina, e não por acaso com alta prevalência do vírus, serão as primeiras a receber as tão esperadas doses de tranquilidade. Que assim seja, e a vida possa voltar finalmente ao normal.

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Publicado em VEJA de 15 de julho de 2020, edição nº 2695

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