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Carta ao Leitor: Barril de pólvora

Em flerte com uma ruptura institucional, Bolsonaro abdica sistematicamente do dever de governar e insiste na política do 'nós contra eles'

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 5 jun 2020, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 14h21

Como se todos os problemas existentes já não fossem suficientes, a escalada de mortes pela Covid-19 e a necessidade de uma recuperação econômica no pós-pandemia, o país tem flertado com uma outra calamidade, absolutamente dispensável e anacrônica: uma ruptura institucional, um conflito entre os três poderes. Diversos atores vêm contribuindo para aumentar o clima de instabilidade, a começar pelo presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, que até agora parece não ter compreendido o papel para o qual foi eleito. Sem nenhum pudor, o presidente abdica sistematicamente do dever de governar e insiste na política do “nós contra eles”, do confronto permanente com o Supremo Tribunal Federal e com o Congresso. Esquecido de que é o comandante de um país chamado Brasil, o ex-capitão promove quase que diariamente uma guerra dentro de sua própria trincheira, alimentando grupos de fanáticos (minguados e teatrais) que saem por aí com tochas nas mãos, numa estética que lembra os supremacistas brancos americanos e as tropas nazistas do filme Triunfo da Vontade, dirigido por Leni Riefenstahl.

Pela gravidade do atual cenário, chegou a hora de o presidente finalmente investir-se da responsabilidade que seus eleitores lhe incumbiram. Não para pôr o Exército nas ruas, como alguns de seus seguidores vêm continuamente sugerindo, mas, sim, para desanuviar o ambiente, sem meias-palavras ou frases ambíguas. Ao fazer-se de vítima de outros poderes ou sugerir que não vai respeitar decisões tomadas pelo STF, Bolsonaro dá razão aos que enxergam seus passos como manobras para, diante de qualquer pretexto no futuro próximo, tentar um golpe. Deveria fazer exatamente o contrário. Este é o momento em que um presidente à altura do cargo teria de mostrar sua autoridade na direção correta, defendendo a recente (e, portanto, ainda frágil) democracia brasileira e liderando o país no combate à pandemia e na retomada. Até aqui, Bolsonaro tem se eximido completamente desse papel, preferindo realizar voos de helicóptero sobre manifestantes que desrespeitam o isolamento social, falando palavrões em reuniões ministeriais de baixíssima qualidade ou cavalgando pela Esplanada, em cena que remete ao general Newton Cruz, chefe do Serviço Nacional de Informações durante o período da ditadura militar.

É fundamental ressaltar que, embora seja o principal promotor do caos, o presidente não é o único personagem afeito a conturbar o ambiente. Em menor intensidade, mas com efeitos que podem ser devastadores, setores do STF, do Congresso e da sociedade civil precisam entender que o confronto direto ou conspirações de gabinetes não trarão nada de bom em circunstância tão grave. O fato é que não existe, até aqui, nenhuma razão objetiva para a realização de um impeachment do presidente eleito. Ao partirem para a guerra franca contra Bolsonaro, na verdade, tais figuras apenas tiram o foco da população da sua deficiente administração e caem diretamente na narrativa que mais beneficia o presidente: o embate, as versões, a confusão. Basta de protagonismos indevidos e manobras conspiratórias. Temos de pensar no Brasil. É inconcebível também que brasileiros conscientes saiam de casa nos próximos dias para protestar contra Bolsonaro. Primeiro, porque estamos em meio à pior fase da pandemia do coronavírus. Depois, porque o risco de confrontos é enorme, algo que só vai piorar o delicado equilíbrio deste momento político. A hora é de um pacto nacional pela defesa da democracia e da Constituição, compromissos permanentes de Veja, sem violência nem atos hostis.

Publicado em VEJA de 10 de junho de 2020, edição nº 2690

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