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Carta ao Leitor: Atirar não resolve

A batalha contra a violência exige bem mais do que balas

Por Da Redação - Atualizado em 27 set 2019, 08h52 - Publicado em 27 set 2019, 06h55

Na semana passada, o país lamentou a morte da menina Ágatha, de 8 anos, atingida nas costas por uma bala — saída, ao que tudo indica, da arma de um policial. Parece uma fatalidade, mas não é. A tragédia é um dos efeitos colaterais de um fenômeno que vem se espalhando no Brasil: a tentativa de resolver problemas complexos com soluções simples. No caso em questão, a suposta panaceia para o problema da violência é fazer com que a polícia saia disparando — e seja premiada por isso. Não por coincidência, o governador Wilson Witzel (PSC), do Rio, onde ocorreu o assassinato, é um dos expoentes da política do “tiro na cabecinha”. Recentemente, ele deu pulinhos de alegria quando um desempregado sequestrou um ônibus e foi alvejado por um sniper da polícia fluminense. A conta de tamanha irresponsabilidade, no entanto, chegou. Confrontado com o assassinato de Ágatha, Witzel primeiro demorou a reagir. Depois, para piorar, aumentou a bonificação da PM a cada morte acumulada.

Não se trata de crucificar policiais como os vilões dessa história. Ao contrário. Para combaterem o crime, os profissionais das forças de segurança têm de ser valorizados, com melhores equipamentos, treinamento e salários. Eles devem primordialmente se orientar com inteligência em suas ações e precisam contar com o respaldo de seus governantes, da mídia e da sociedade. O governo de São Paulo, aliás, vem realizando um trabalho competente nessa área, com investimentos em tecnologia e armamento. A polícia paulista comprou 1 400 drones para atuar no monitoramento de áreas suspeitas, adquiriu uma frota de 1 000 veículos blindados e transferiu 27 líderes de facção para cadeias federais. Contudo, mesmo que tenham todas as condições e apoio, os agentes da lei precisam de uma orientação clara: atirar é o último recurso. Muitas vezes, inevitável. Mas a prática não deve ser transformada na única política de Esta­do quando o assunto é segurança pública.

O ponto fulcral aqui é que não se diminui a violência apenas a bala. É necessário um trabalho de fundo, em paralelo, para que os avanços ocorram e sejam consistentes. Nesta edição, VEJA detalha um dos caminhos que ajudam na luta contra o crime. Trata-se do programa Compaz, implantado no Recife, que, entre outros benefícios, vem colhendo bons frutos no combate à bandidagem. Em linhas gerais, o projeto promove uma presença maior do Estado em áreas conflagradas. Não apenas com força policial, mas também com bibliotecas, escolas e postos de saúde. A retomada desses espaços faz com que, aos poucos, a dinâmica daquelas comunidades seja pacificada. A inspiração veio de Medellín, na Colômbia, que viu sua taxa de criminalidade cair, em 25 anos, de 380 assassinatos por 100 000 habitantes para apenas 21. Iniciativas semelhantes estão começando em Natal (RN) e em Belém (PA). Tomara que a tragédia que se abateu sobre Ágatha e sua família suscite pelo menos uma reflexão mais profunda sobre o tema e faça com que Witzel e outros governantes repensem sua estratégia. Dizer que a polícia sairá atirando pode até trazer popularidade num primeiro momento, mas não vai resolver o problema. A batalha contra a violência exige bem mais do que balas.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654

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