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Carta ao Leitor: A chaga ignorada

As reportagens sobre obesidade e subnutrição no Brasil, publicadas nesta edição de VEJA, mostram que o país tem pela frente um desafio fenomenal

Nesta edição de VEJA, o leitor encontrará um material especial sobre alimentação no Brasil. As reportagens traçam um panorama da nutrição no país durante os últimos cinquenta anos e mostram, entre as notícias mais preocupantes, o crescimento da obesidade. Desde 2013, mais de 50% dos brasileiros se encontram acima do peso, e, para piorar, os especialistas estão alarmados com o avanço do problema na população infantil. Mas há um aspecto que agrava esse quadro, e sua descrição aparece em outra reportagem publicada na revista.

Ali, o leitor terá informações sobre o aumento da taxa de mortalidade infantil no Brasil, um indicador que vinha caindo nos últimos 26 anos, sem falhar um único ano. Agora, com a severidade da crise e o corte nos gastos sociais, ela voltou a subir. Hoje, de cada 1 000 crianças nascidas vivas, catorze morrem antes de completar 1 ano. É  um número que pode recolocar o Brasil no mapa da fome da ONU, do qual havíamos saído, orgulhosamente, em 2014.

Uma das principais causas da elevação da mortalidade infantil está na desnutrição, decorrência direta do descalabro econômico que o país vive. Uma parte das crianças brasileiras come menos do que deveria para ter uma vida minimamente saudável. Subnutridas, elas ficam mais sujeitas a morrer de doenças que jamais abateriam uma criança saudável, como a diarreia.

Juntando-se as duas reportagens — a da obesidade e a da subnutrição —, fica evidente que o Brasil tem pela frente um desafio fenomenal, o de ser um país que convive a um só tempo com a fome e seu oposto. Ou, melhor, um país que convive com a alimentação escassa e o excesso de má alimentação. E isso ocorre no país das safras excepcionais, vocacionado para ser o celeiro do mundo.

Como chegamos a esse ponto? Como o Brasil voltou a desnutrir suas crianças e desleixou-se tanto na qualidade da alimentação das que podem comer, tudo isso dentro de um território que produz alimento — de boa qualidade, aliás — para parte relevante do planeta?

A resposta tem múltiplas facetas e inúmeras razões. Há, porém, um dado capaz de resumir tudo: a desigualdade indecente da sociedade brasileira — a desigualdade de renda, a desigualdade de oportunidades. Só ela explica a coexistência de extremos tão agudos, tão violentos.

Mas talvez o dado mais desanimador nem seja o grau dramático da desigualdade brasileira, que se mantém em níveis historicamente inaceitáveis, e sim a incapacidade nacional — de políticos e autoridades de direita, de centro, de esquerda — de atacar o problema de frente. Está entre nossas maiores chagas e, no entanto, segue ignorada.

Publicado em VEJA de 25 de julho de 2018, edição nº 2592