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Canções alcoviteiras

Inspirado no filme de Billy Wilder, 'Se Meu Apartamento Falasse...', única aventura do compositor Burt Bacharach no teatro musical, ganha versão brasileira

Chuck Baxter é funcionário de uma companhia de seguros. Sem muitas chances de crescer dentro da empresa só pelo mérito, ele encontra uma solução criativa (mas não muito digna) para agradar a colegas e chefes: empresta seu apartamento para furtivos encontros amorosos. J.D. Sheldrake, dono da empresa em que Baxter trabalha, torna-se frequentador da improvisada garçonnière. O que o postulante a alcoviteiro não sabe, contudo, é que a amante de Sheldrake é a garçonete Fran Kubelik — sua paixão. Esse cínico triângulo amoroso movimenta Se Meu Apartamento Falasse…, comédia de Billy Wilder que ganhou o Oscar de melhor filme em 1961. O sucesso do filme conduziu a uma adaptação para o teatro musical, que estreou na Broadway em 1968 com o título Promises, Promises. O dramaturgo Neil Simon adaptou o roteiro para o teatro, e as canções ficaram a cargo do compositor Burt Bacharach e do letrista Hal David. Foi um sucesso no palco — e, depois, nas paradas de disco: I’ll Never Fall in Love Again, canção da peça, estourou nas rádios em 1970, na voz de Dionne Warwick. Uma nova montagem realizada no Brasil estreia no Rio de Janeiro nesta sexta-feira, 15, produzida e dirigida por Charles Möeller e Claudio Botelho, dupla que coleciona vários sucessos no palco musical brasileiro, como A Noviça Rebelde e Beatles num Céu de Diamantes (que em 2018 completa dez anos em cartaz). Essa adaptação retoma o título em português do filme estrelado pelos então jovens e encantadores Jack Lemmon e Shirley MacLaine: Se Meu Apartamento Falasse…

Rei das rádios FM de easy listening nos anos 60 e 70, Bacharach já tinha composto para o cinema, mas nunca para a Broadway, quando foi abordado pelo produtor teatral David Mer­rick em uma festa em Londres, em 1968. Neil Simon havia sugerido a Merrick uma versão musical de Se Meu Apartamento Falasse…, e o produtor convidou Bacharach para fazer as canções. O temperamento de Merrick, áspero até para os padrões da Broadway, dificultou o trabalho. Os insultos do produtor chegaram a levar um coreógrafo às lágrimas. Caprichoso, Neil Simon a princípio quis tirar o ator Jerry Orbach do elenco. No fim, Orbach ficou com o papel principal, pelo qual ganhou um Tony, o Oscar do teatro americano. Fragilizado pelo stress, Bacharach foi internado com pneumonia no meio do processo de composição. O musical foi um sucesso e permaneceu mais de três anos em cartaz, mas o compositor nunca mais se arriscou na Broadway.

A fonte – Jack Lemmon e Shirley MacLaine no filme vencedor do Oscar de 1961: frescor e encanto traduzidos em música

A fonte – Jack Lemmon e Shirley MacLaine no filme vencedor do Oscar de 1961: frescor e encanto traduzidos em música (Billy Wilder/Divulgação)

Bacharach é um autor de melodias simples, mas nunca banais. Suas composições exigem a entrega total do intérprete. Em Promises, Promises (Tantas Promessas, na versão em português), canção que dá nome ao espetáculo americano, a sucessão de notas cada vez mais altas cantadas por Baxter passa a sensação de frustração do personagem ao perceber que sua estratégia para subir na vida não está dando certo. Também exigente para o cantor é Wanting Things (Com o Mundo nas Mãos, no espetáculo nacional), balada feita para Sheldrake, patrão de Baxter, justificar sua cafajestice. Aluno do compositor francês Darius Milhaud e bossa-novista tardio, Bacharach trouxe um sopro de modernidade para a Broadway. Seu único musical teria influência sobre Company, espetáculo de Stephen Sondheim que estreou em 1970.

As letras de Hal David representam um desafio para os versionistas. “Elas são simples mas inusitadas. Há muitas rimas internas e acidentes linguísticos quase intraduzíveis”, diz Claudio Botelho, que cuidou das versões em português (o parceiro Charles Möeller responde pela direção de elenco). Botelho suou a testa em Turkey Lurkey Time, canção que por diversas vezes tem o  andamento mudado. “É uma espécie de lista nonsense de referências natalinas americanas. Optei por criar um trava-língua verde-amarelo, que tem até um Papai Noel com amante em Pernambuco”, diz. Título maroto em português: Disse o Peru: Glu-Glu. Outro vespeiro foi a canção I’ll Never Fall in Love Again, da qual Dionne Warwick se apropriou. Em português, virou Juro que Não Quero Mais.

Promises, Promises ganhou uma remontagem na Broadway em 2010, com Sean Hayes (da série Will & Grace) e Kristin Chenoweth (do musical Wicked) como Baxter e Fran. O espetáculo ficou marcado por uma controvérsia gratuita: uma crítica mal-­educada da revista Newsweek insinuou que Hayes, homossexual assumido, não caberia na pele de um personagem hétero. Kristin saiu em defesa do companheiro de cena. Nome consagrado da Broadway, a atriz também teve seu momento de diva: considerou que estava cantando pouco em cena, e por isso ganhou I Say a Little Prayer e A House Is Not a Home, obras da dupla Bacharach e David que nada tinham a ver com o espetáculo (aliás, não foram incorporadas à versão brasileira). “Ela fez valer seu status de estrela. Mas até que cantou bem”, despistou Bacharach em entrevista a VEJA.

O musical de Bacharach já teve uma encenação anterior no Brasil. Foi em 1970, com o título de Promessas e Promessas. O elenco trazia Jardel Filho e uma Rosemary ainda cheirando a talco de bebê. Victor Berbara, produtor e diretor do espetáculo, abrasileirou a trama. Fran virou Marlene Hoffman; Sheldrake, doutor Amarante; e a cena em que Fran tenta o suicídio ganhou toques de chanchada. “Bacharach assistiu ao que a gente fez com o espetáculo e adorou”, orgulha-se Berbara. Embora faça algumas referências regionais — como a amante pernambucana de Papai Noel —, a nova versão restitui os nomes americanos consagrados no filme de Billy Wilder. Marcelo Medici, Marcos Pasquim e Malu Rodrigues fazem Baxter, Sheldrake e Fran, e a comediante Maria Clara Gueiros vive a espevitada Marge MacDougall. Medici chega referendado pela ótima atuação em Rocky Horror Show, musical em que interpretou o cientista maluco (e transexual) Frank N Furter, e traz o aval de Silvio de Abreu. O noveleiro assistiu à montagem da Broadway e achou que o Baxter era a cara de Medici. Cabe a esses atores conservar o frescor das canções de Bacharach — e do filme que as inspirou.


Sopro de modernidade na Broadway

O método – Bacharach, em foto de 2009: roteiro, música e letra

O método – Bacharach, em foto de 2009: roteiro, música e letra (VME Entertainmet/Divulgação)

Mestre do pop chique, Burt Bacharach, 89 anos, fala de sua versão musical do filme de Billy Wilder.

Como foi levar Se Meu Apartamento Falasse para o palco? Eu e o letrista Hal David fomos contratados para dar um sopro de inovação à Broadway. Até mudei a maneira de compor: criei as melodias a partir do roteiro, de Neil Simon. Depois disso, David fazia as letras, e então eu voltava a trabalhar a música.

Quais suas canções prediletas? Promises, Promises é uma delas. Jerry Orbach, que trabalhou na versão original, de 1969, queixou-se de que ela tinha notas demais. Respondi que aquele recurso era necessário para mostrar a raiva do personagem pelas promessas que seu patrão não cumpriu. No fim, Orbach ganhou um Tony por sua atuação.

Do musical, saiu I’ll Never Fall in Love Again, sucesso na voz de Dionne Warwick. Por que a Broadway não consegue mais emplacar canções desse tipo? Porque na música pop hoje predomina o hip-hop, que não tem nada a ver com melodias e canções. I’ll Never Fall in Love Again pode fazer sucesso em bares e boates gays, onde ainda se lembram dela. Mas hoje não teria força para tocar em rádios.

Publicado em VEJA de 20 de dezembro de 2017, edição nº 2561