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Bolsonaro presidente?

Mais um candidato quer brincar de liberal. Desconfie

O CANDIDATO Jair Bolsonaro já conseguiu um feito nesta pré-temporada presidencial: entrou para o primeiro escalão da política. Não pela qualidade do que diz — ao contrário. Mas deixou de ser alguém secundário, pois, em teoria, poderá se sentar na cadeira de Temer dentro de um ano. Nos últimos dias, duas ocasiões em que Bolsonaro ganhou os holofotes merecem atenção. Em uma delas, ressurgiu uma entrevista sua concedida há dezoito anos em que elogiava o líder venezuelano Hugo Chávez. Fazia paralelos entre sua trajetória e o golpe militar brasileiro, que defende incansavelmente. “Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil.” À primeira vista, é um amor estranho. Segundo a leitura tradicional, os dois estariam em polos opostos. Mas talvez não seja tão estranho assim. O recorte ideológico mais interessante hoje não é esquerda versus direita, mas liberais versus antiliberais, para usar a ideia contida no mais recente livro do cientista político Bolívar Lamounier. Olhados desse ângulo, os extremos se aproximam. A visão antiliberal tem pouco apego à normalidade democrática, como tanto Bolsonaro quanto Chávez cansaram de mostrar. É reveladora a declaração do ex-presidente Lula sobre o que via como “democracia em excesso” na Venezuela. Ele não era exceção: 100% da intelectualidade de esquerda se encantara com Chávez. Outro ponto comum da visão antiliberal é a perspectiva algo romântica de que nossos problemas esbarram na falta de “vontade política”. Vale dar um pulo em Caracas para conferir no que resultou a vontade política bolivariana.

Mas Bolsonaro também foi notícia ao declarar seu amor (“heterossexual”, frisou) ao economista Paulo Guedes, um medalhão do pensamento liberal na economia. E aí as coisas ficaram meio confusas. O mercado recebeu bem a notícia, acreditando no aggiornamento do candidato. No passado, Ciro Gomes tentou tática semelhante ao se aproximar do economista José Alexandre Scheinkman, sem sucesso. Na mesma eleição, Lula escreveu a Carta ao Povo Brasileiro, na qual abandonava radicalismos do passado. Mas é melhor ter cautela com conversões de última hora. Vale retomar as ideias do economista americano (e pintor nas horas vagas) William Baumol, morto aos 95 anos, em maio. Em um livro lançado dez anos atrás, ele lembrou que não existe uma forma única de capitalismo. Há países dominados por oligarquias. Há aqueles em que o governo tudo decide. Há uma versão centrada em grandes companhias. E há, por fim, o capitalismo empreendedor. Cada nação mistura elementos desses quatro tipos. Baumol defendia combinar o dinamismo empreendedor com a força das grandes empresas. E também um afastamento das versões oligárquica e estatal — alguém aí se lembrou de Dilma?

Começamos 2018 navegando por novos mares: sem Lula, o PT tende a minguar, enquanto o PSDB parece cada vez mais isolado (e sofrendo uma interessante concorrência do Novo à direita). O grau de adesão — verdadeira — ao credo liberal do próximo presidente dirá muito sobre o que vamos alcançar na próxima década.

Publicado em VEJA de 20 de dezembro de 2017, edição nº 2561