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As mãos da limpeza

A extraordinária história de um casal de americanos que doou imensos pedaços de terra no Chile para a criação de uma área de proteção do tamanho da Suíça 

O americano Douglas Tompkins foi um homem de superlativos — levava a vida ao limite, queria sempre muito mais e corria riscos exponenciais. Não por acaso, morreu, em 2015, em um acidente de caiaque numa corredeira da Patagônia chilena, onde vivia desde 1990, depois de vender duas de suas grifes de roupas esportivas mais conhecidas — a The North Face e a Esprit. Tinha 72 anos e não parava quieto. Ao abandonar os negócios, tornara-se um conservacionista dedicado a “salvar o paraíso”, nas próprias palavras. Gastara pelo menos 380 milhões de dólares, naco vistoso de sua fortuna, comprando terras no Chile e na Argentina, com a intenção de recuperá-las e depois doá-las ao Estado. Tinha em mente um objetivo que soava como provocação: mostrar que a preservação ambiental, na forma de filantropia, pode vir justamente de onde se teme brotar sua destruição — a iniciativa privada.

BENFEITORES – Kristine e Douglas Tompkins (já falecido): sonho da vida inteira

BENFEITORES – Kristine e Douglas Tompkins (já falecido): sonho da vida inteira (Tompkins Consevation/.)

No fim de janeiro deste ano, a viúva de Tompkins, Kristine McDivitt, anunciou ter definitivamente sacramentado um acordo com a presidente chilena Michelle Bachelet, nos estertores de sua gestão, com a força dos grandes momentos. Doou 400 000 hectares ao governo e, com essa benemerência, deu-se o desfecho da “maior doação de terras da história”. No total, acrescentando-se os pedaços de terra estatais, pelo decreto assinado serão criados cinco parques naturais e expandidos outros dois. Tudo somado, são quase 4,5 milhões de hectares — o equivalente ao território da Suíça. O objetivo, segundo Bachelet, é preservar as espécies de flora nativas e estimular o turismo na região. A única condição imposta pelos Tompkins: os parques devem ser públicos, abertos à visitação, desde que respeitadas rígidas normas ambientais. “Proteger a natureza é um gesto democrático”, disse Kristine. “Há 25 anos Doug teve uma ideia audaciosa e hoje pudemos cumprir seu sonho.” Cerca de 20% do território chileno está, agora, debaixo das regras desse acordo público-privado. Uma estrada com 2 500 quilômetros em breve ligará os dezessete parques do estreito país austral.

 (Arte/VEJA)

Não foi uma trilha fácil até que a doação se concretizasse. A suspeita sempre rondou os movimentos do casal. Para muitos chilenos, os dois eram apenas estrangeiros comprando as estâncias para impedir o trabalho — e o lucro — de pecuaristas e madeireiros. Foram criticados também por ter usado sua influência política para bloquear a construção de uma usina hidrelétrica, que geraria empregos. A distensão ocorreu apenas em 2015, pouco antes da morte de Tompkins, quando um primeiro pedaço de terra no sul do país foi oficialmente doado e ali brotou um polo vigoroso e sustentável de ecoturismo, internacionalmente elogiado. O exemplo mais bem-sucedido foi o do Valle Chacabuco, hoje conhecido como Parque Patagônia. As fazendas foram desativadas e cerca de 25 000 ovelhas removidas para dar espaço aos animais selvagens. Os pequenos produtores que depredavam o lugar foram convertidos para o outro lado da força: deixaram a pecuária e receberam treinamento para viver do turismo gerado pela visitação da área protegida.

Espera-se, agora, o contágio da ideia. O sucessor de Michelle Bachelet, Sebastian Piñera, eleito por uma coalizão de direita, já divulgou a manutenção de todo o plano. O presidente argentino Mauricio Macri também decidiu dobrar a superfície protegida do país, e no mesmo desenho imaginado por Douglas Tompkins. “Quando tínhamos 20 anos de idade, Doug e eu não fazíamos ideia do que ocorria com o meio ambiente”, diz Kristine. “Quando soubemos, decidimos agir. O importante não é quanto dinheiro se tem, mas o que se faz com ele. Como disse um amigo suíço, sua última camisa nunca tem bolsos.”

Publicado em VEJA de 21 de fevereiro de 2018, edição nº 2570