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“Aos poucos, as coisas estão melhorando. Mas ainda falta muito”

Paulo Lins, autor de 'Cidade de Deus', diz que enfrentar o racismo faz parte do cotidiano dos negros

Por Paulo Lins 17 nov 2017, 06h00
//VEJA

“O racismo é uma coisa que está no dia a dia. Você vê no Brasil e em boa parte do mundo que o racismo começa na hora em que você acorda. Seja na direção das grandes empresas, nas universidades, na imprensa, a massa é de brancos. Pode ver: em qualquer lugar, os chefes são brancos, os ricos são brancos, os políticos são brancos. E, por outro lado, o porteiro, o atendente, o lixeiro e o motorista (que leva o patrão branco, que vai no banco de trás) são negros. A gente se acostumou com isso. É banal. Faz parte da paisagem.

Viver essa realidade é difícil, porque as pessoas ficam te olhando. O tempo todo. Se você anda na rua à noite, por exemplo, as pessoas mudam de calçada porque acham que você vai assaltá-las. Eu morava no bairro de Perdizes, em São Paulo, e só existia eu de negro no prédio. Aliás, em bairros de classe média alta, os negros são raridade. Em restaurantes mais refinados, quando você tem mais grana, é só você ali. Passo por isso com frequência. Ou seja, o racismo é uma coisa natural. Foi incorporado na vida da gente. A polícia te para quando você passa. De certa forma, você se acostuma com isso. Em qualquer setor, quem está no lugar mais privilegiado é branco. Eu não estou dizendo que os brancos são racistas, não. Mas a sociedade de modo geral é racista.

Não consigo elencar um episódio mais marcante na minha vida porque, reforço mais uma vez, o mais duro é enfrentar o racismo diário. Se você levar isso a sério, realmente vai pensar que é uma pessoa inferior. Não tem a ver com ser bem-sucedido: nem assim você está livre do racismo. Você pode ter grana, pode ter qualquer coisa, que continuará sendo negro. Aos poucos, nos últimos anos, a coisa tem melhorado. A começar pelo fato de que, se fosse há um século e meio, eu seria um escravo. Meu pai é neto de escravo. As coisas estão melhorando, mas falta muita, muita coisa ainda.

Esse tema me intriga tanto que meu próximo roteiro é de um filme sobre racismo, dirigido pelo Jeferson De, negro como eu. Ele se passa numa faculdade de medicina e a obra tem início na aula de anatomia, em que os corpos para ser estudados são todos de negros. Há só um cotista na sala — um negro, apenas um. Assim começa o filme. Falaremos sobre como ele é hostilizado, como é viver com racismo diário. Falar e debater o assunto é importante. Se eu — um cara bem-sucedido, que frequenta bons lugares — sou vítima de racismo, imagine as mulheres e as crianças negras. É muito pior. O racismo é uma coisa muito séria.”

Depoimento a Bruno Meier

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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