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Agentes sob pressão

A reportagem de VEJA que relata a rotina de Lula na prisão constrangeu a PF, que agora apura as “falhas” que permitiram à revista acessar a ala restrita

Depois da reportagem de capa da edição passada, sobre a rotina do ex-presidente Lula em seus primeiros trinta dias de prisão, a Polícia Federal ficou em apuros. Ela foi acusada de falhar clamorosamente na segurança de Lula. O episódio gerou protestos de petistas, que pediram providências ao ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e acusações de que a corporação permitira a violação da intimidade do ex-presidente. Na sexta-feira 4, a PF, tentando salvar a pele, divulgou uma nota em que afirma que, depois de “minucioso exame” das imagens internas de segurança, constatou que a reportagem de VEJA jamais “teve acesso à área restrita” onde Lula está preso. Diz também que a reportagem está eivada de informações “equivocadas e imprecisas”, mas cita um único exemplo: que Lula, ao contrário do que VEJA publicou, nunca tomou uma injeção de insulina.

Em seus cinco parágrafos, a nota da PF acerta numa coisa. De fato, o ex-­presidente não recebeu a dose de insulina. Em vez disso, Lula foi submetido a uma medição da taxa de glicose, por causa do diabetes. Lula trata a doença com remédios, sem a aplicação de doses de insulina. Fora isso, o comunicado da PF tenta ludibriar a plateia. VEJA entrou no prédio, subiu ao andar em que Lula está preso e esteve, aliás, a poucos passos da porta da sala que foi transformada em cela presidencial. Ali, uma fita azul, semelhante às usadas nos guichês dos aeroportos, isola a área da sala-cela, protegida ainda por dois policiais armados.

O passeio da reportagem pode ser visto nas imagens captadas na tarde de sexta-feira, 27 de abril. O jornalista pegou o elevador, foi até o 3º andar, caminhou à esquerda em direção à escada de incêndio e subiu até o 4º andar. Ali, ao abrir a porta do corredor que dá acesso à cela onde está Lula, foi interceptado pelos agentes do Grupo de Pronta Intervenção (GPI), a tropa de elite da PF. VEJA fez outra visita à Superintendência da PF em Curitiba, na quarta-feira 2 de maio. Nesse dia a reportagem conseguiu circular pelo prédio, mas não teve acesso ao 4º andar.

Pressionada, a Polícia Federal iniciou uma apuração para descobrir o que considerou uma “falha de segurança”. VEJA também pediu à PF que informasse quais os dados “equivocados e imprecisos”, além da questão da insulina, para que a revista pudesse corrigi-los, se fosse o caso. Em resposta, a PF alegou que não podia fazê-­lo por “motivos de segurança”. Na reportagem, depois de ouvir diversas pessoas que tiveram contato com Lula na prisão, VEJA narrou a rotina do ex-­presidente, descreveu o ambiente de sua cela e contou bastidores sobre seu primeiro mês encarcerado. Entre outros detalhes, revelou que Lula, chamado de “o cliente” pelos policiais, faz exercícios físicos, acompanha o noticiário da TV, está lendo best-sellers, mantém seu hábito de contar piadas e havia solicitado a instalação de uma esteira ergométrica e um frigobar em sua cela. Na segunda-feira 7, a juíza Carolina Moura Lebbos negou o frigobar, mas autorizou a instalação da esteira.

Publicado em VEJA de 16 de maio de 2018, edição nº 2582