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Abuso de poder

Presidente há catorze meses, Macron enfrenta sua primeira crise política — causada por um segurança que batia em manifestantes nas horas vagas

Não é fácil livrar-se de alguém que tem a chave dos seus segredos e da sua intimidade. No caso do agora ex-guarda-costas do presidente da França, Emmanuel Macron, quando se fala em intimidade é no sentido literal: nos períodos de folga, Macron e a primeira-dama, Brigitte, trocavam o Palácio do Eliseu, em Paris, por sua casa em Touquet, no norte da França, e era o segurança Alexandre Benalla quem abria e trancava a porta da residência particular. Ele também estava sempre a poucos metros de Macron, ao alcance de suas conversas privadas, desde a campanha presidencial até as atuais reuniões palacianas.

E, como segredo se paga com segredo, os franceses desconfiam dos motivos que levaram Macron a fazer pouco-caso do comportamento nada, digamos, republicano de seu segurança nas horas vagas: um vídeo divulgado há duas semanas pelo jornal Le Monde mostra Alexandre Benalla, com um capacete da tropa de choque a ocultar-lhe o rosto, agredindo manifestantes nos protestos de 1º de Maio. Não havia motivo para ele estar no local, já que Macron tampouco estava.

Com a divulgação do vídeo, Benalla foi demitido e passou a ser investigado pelos crimes de usurpação de função e de atos de violência por parte de um servidor público. Antes do vídeo, ele havia sido punido pelo governo, mas discretamente. Fora suspenso por quinze dias. Macron chegou a defender que o episódio tinha pouca importância. Quando questionado sobre o incidente por jornalistas, o presidente disse que só eles se importavam com o fato. Mas as críticas se avolumaram quando se descobriu que o ministro do Interior, Gérard Collomb, soube do ocorrido na época e não o denunciou à Justiça. O caso cresceu e, na segunda-feira 23, Macron rompeu o silêncio: “Assumo a ­responsabilidade sozinho”.

A popularidade de Macron, que caiu de 61% para 44% em um ano de mandato, ficou mais arranhada com o escândalo do guarda-costas — e reforçou a pecha de arrogante de que o presidente desfruta entre os franceses. Em 9 de julho, em discurso ao Congresso, ele havia justamente tentado mostrar-se mais humilde, admitindo que os resultados das reformas de seu governo podem demorar a aparecer para a população mais pobre. Desde que assumiu, Macron apresentou uma reforma trabalhista que gerou uma série de greves e protestos e reduziu impostos sobre grandes riquezas e sobre bancos. A imprensa francesa o chama de Júpiter, o deus dos deuses romanos, por abusar de decretos e da maioria parlamentar.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593