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Abelhas… e quatro dias na UTI!

Morei em uma sala com uma dúzia de camas

Por Claudio de Moura Castro 17 nov 2017, 06h00

ERA UM passeiozinho banal, mas a estrada abandonada virou picada e logo acabou. Decidi subir o restante pelo meio do mato. A caminhada se tornou uma escalada. De repente, topo com uma casa de abelhas (das que moram no chão). Sem volta, continuei, sendo acompanhado por um séquito cada vez maior. Logo elas perdem a cerimônia e começam a picar. Pouco adiante, perco as forças. Como avançavam nas pálpebras, não conseguia usar o celular. Finalmente, falei com o gerente do condomínio, que mobilizou o socorro. Duas horas depois, fui achado. Com cordas e grande competência, os bombeiros guindaram-me do buraco.

Na ambulância, comecei a vomitar abelhas, enquanto a médica me dava adrenalina e morfina. Fui para a respeitada UTI do Hospital João XXIII. Com giletes, as enfermeiras retiraram quase mil ferrões. Para a médica, o caso era perdido. Mas, parafraseando Mark Twain, as notícias da minha morte foram amplamente exageradas. Sobrevivi, prova de que há bons hospitais públicos!

Por quatro dias, como assombração, morei em uma sala com uma dúzia de camas. Na falta do que fazer, estudei o funcionamento de uma UTI e relato aqui o aprendido.

Dia e noite, brilhavam as luzes. À minha frente estava alguém que tentou assaltar um ônibus mas foi defenestrado pelos passageiros. Uma pesada corrente atava seu pé à cama. À porta, policiais brandiam metralhadoras. Como os pacientes estão quase todos entubados e parecendo mais para lá do que para cá, as dezenas de funcionários e médicos conversavam, sem nenhum esforço para moderar o volume. Alguns falavam de medicamentos, uma do biquíni novo, outra da troca de turno com a colega. Em certas horas, entravam bandos de estudantes de medicina, bebendo as doutas palavras do médico.

Na lógica da operação, cada um tinha sua tarefa. À minha cama, um vinha com remédio para isso, outro com injeção para aquilo, um para medir a glicemia, o outro para aplicar insulina, um para fazer eletro, o outro para examinar os pulmões. E que mania de conferir pressão e temperatura! O toxicologista aparecia de vez em quando. O otorrino, para tirar abelhas do nariz e dos ouvidos. Ninguém mais do que eu reconhece a competência de cada um e a capacidade de interagir coletivamente. De resto, não havia a correria nem o nervosismo dos filmes de TV. A endocrinologista comandava o espetáculo.

Assim funcionam as UTIs, com a sua cultura própria. Há que manter vivo o corpo. Que esperem a alma e o conforto do paciente. Entrei e saí sem pôr os pés no chão. Não há vaso sanitário nem chuveiro. Todos só de fralda e ganhando banho de gato. Pedi uma pastilha para a garganta, a médica olhou para mim como se eu estivesse exigindo uma taça de Veuve Clicquot. Tampouco havia pasta e escova de dentes. As pálpebras mordiscadas amiúde pediam um banho de soro fisiológico, um luxo a que os atendentes acediam com relutância.

Mais dois dias em outro hospital e voltei para casa. Um amigo pergun­tou-­me se tentei identificar as abelhas em fotos na internet. Na resposta, selecionei meus melhores palavrões.

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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