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A vitória em tecnicolor

Acabou o preto. No Oscar, atrizes desfilaram vestidos coloridos — e comportados, como a causa pede — para celebrar o impacto de seu movimento em Hollywood

Se não trouxe muitas surpresas na lista dos vencedores, a festa do Oscar, no domingo passado, primou pelo brilho e pelo colorido. As mesmas atrizes que fizeram do preto uma espécie de uniforme na premiação do Globo de Ouro, em janeiro, em maciça manifestação de apoio aos movimentos antiassédio, desta vez desfilaram vestidas de dourado, vermelho-vivo, azul forte e branco, muito branco. Mais ainda: brandindo uma recém-valorizada consciência de que suas curvas não são a medida de seu talento, a maioria abdicou das transparências e das fendas e decotes vertiginosos em favor da pura e simples elegância.

“Sensualidade exagerada não combina com a bandeira contra abusos sexuais”, concorda a jornalista Iesa Rodrigues, especializada em moda. Nas roupas, nos discursos, na distribuição de estatuetas e até nas piadas, este Oscar virou uma página. Há quase meio ano da exposição do produtor Harvey Weinstein como predador-mor do mundo do cinema e da avalanche de denúncias que veio depois, a mensagem da noite de domingo foi a seguinte: as mulheres — e, por tabela, os negros, os transgêneros e minorias em geral — venceram a batalha.

…E AS DESCOBERTAS – Seriedade tem limite: corpos à mostra marcaram presença nas festas pós-Oscar. A modelo Alessandra Ambrosio e a atriz Paris Jackson

…E AS DESCOBERTAS – Seriedade tem limite: corpos à mostra marcaram presença nas festas pós-Oscar. A modelo Alessandra Ambrosio e a atriz Paris Jackson (Danny Moloshok/Reuters e Dia Dipasupil/AFP)

Individualmente, as atrizes continuam a exibir alegremente o corpo perfeito em ousados modelos de alta-costura — como fez a linda Jennifer Lawrence em recentes pré-estreias do filme Operação Red Sparrow. Desinibição também permaneceu a regra nas célebres festas pós-Oscar, onde quem não é do cinema tem sua chance de crescer, desvestir e aparecer — e viva Paris, a filha maluquete de Michael Jackson, enrolada nas faixas de um Versace verde, e a brasileira Alessandra Ambrosio, praticamente coberta de cristais sobre forro cor da pele em um modelo provocante da dupla Ralph&Russo. Mas, convocadas a se mobilizar, as famosas têm vestido com disciplina a camisa — elegantíssima — da causa das minorias.

Foi em nome dessa causa que elas adotaram o preto de protesto no Globo de Ouro e repetiram a dose em fevereiro, no Bafta, a premiação inglesa de cinema e TV. “A moda fútil deu lugar à reflexão”, avalia a consultora Gloria Kalil. Recado dado, passaram para a outra etapa, a da convicção de que a mensagem foi ouvida e a indústria, a partir de agora, vai espelhar isso. Assim embalado, o espírito do Oscar foi de colorida celebração. Nele a mesma Jennifer desfilou em um ofuscante longo Dior dourado metálico, tom estampado também no Versace da queniana Lupita Nyong’o — por sinal estrela do primeiro filme com um super-­herói africano, Pantera Negra. No time da inclusão, Daniela Vega, atriz chilena transgênero, usou um esvoaçante rosa da romena Maria Lucia Hohan (e Uma Mulher Fantástica ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro).

Na passarela da vitória, a incomparável Jane Fonda, de 80 anos, esbanjou classe em um justíssimo Balmain branco, dividindo o pódio de mais elegante com Nicole Kidman em um Armani arrematado por enorme laço (e uma fenda de pôr à prova a cartilha feminista). O vermelho de Reem Acra coloriu a conquista de Allison Janney, que aos 58 anos levou seu primeiro Oscar como atriz coadjuvante, enquanto Emma Stone radicalizava de calça e jaqueta Louis Vuitton. A mexicana Salma Hayek, que em nome da luta antiassédio abdicou (temporariamente, supõe-se) dos generosos decotes, encarou um comportado — e esquisito — vestido Gucci com adereços de diamantes.

Já perto do fim da cerimônia, o momento de glória: Frances McDormand, a atriz mais não hollywoodiana que Hollywood já produziu, pôs sua estatueta no chão, ergueu os braços e convocou todas as mulheres presentes a se levantar. “Senhoras e senhores, olhem em volta. Todas nós temos histórias para contar e projetos que precisam de financiamento”, decretou. Antes de deixar o palco, de Valentino sem frufrus e maquiagem quase zero, finalizou com apenas duas palavras: inclusion rider — que vem a ser uma cláusula dos contratos de produções cinematográficas em que os grandes nomes exigem diversidade na formação do elenco e da equipe técnica. O Dolby Theatre, é claro, veio abaixo.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573