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A vida como comédia

No primeiro volume da autobiografia, Jô Soares rememora a infância carioca, a adolescência em um internato suíço e os primeiros passos na carreira artística

Por Roberto Pompeu de Toledo 24 nov 2017, 06h00

Os jovens gêmeos argentinos Félix e Martín eram idênticos, atrevidos, aprontadores, e gostavam de deixar a barba crescer. Quando ela estava do tamanho da de um aiatolá, um deles ia ao barbeiro e recomendava: “Por favor, señor, me haga la barba, mas com a cadeira virada em direção a Meca, porque senão em cinco minutos ela cresce de novo”. O barbeiro ria, incrédulo. “É verdade, señor, é uma maldição sobre a minha família.” A barba era raspada até o último pelo, o cliente pagava e ia embora. Cinco minutos depois chegava o outro gêmeo, com a barba quase pela cintura e a cara entre o desalento e o desafio: “Yo le avisé, señor”. Desconcertado, atônito, o barbeiro agora caprichava em pôr a cadeira na direção requerida e não cobrava o serviço.

Parece anedota de um show de Jô Soares, e não deixa de ser — ele já a contou em apresentações. Mas os gêmeos Félix e Martín são reais, como é real a troça que aprontavam com barbeiros — eles eram colegas de Jô no colégio Jaccard, na Suíça. Jô Soares está lançando o primeiro dos programados dois volumes de suas memórias, escritas com a colaboração do jornalista Matinas Suzuki Jr. O Livro de Jô está cheio de histórias reais que, como a dos gêmeos, soam como piadas. Seu tio Togo Renan Soares, vulgo Kanela, vitorioso técnico da seleção de basquete, uma vez levou o pequeno Jô a um jogo de futebol no campo do Botafogo. O Kanela era irascível, tempestuoso, briguento. A alturas tantas diz ao menino: “Você fica aqui quietinho que eu vou até o outro lado do campo. Está vendo aquele sujeito? Vou bater nele e já volto”. Foi, esmurrou o desafeto, rolou com ele arquibancada abaixo. Missão cumprida, voltou. De outra vez, em sua primeira viagem internacional — aos Estados Unidos e Canadá —, Jô e a mãe, ambos loucos por cinema, foram ver um filme em Quebec e o menino se surpreendeu com o que ouviu: “Mamãe, o Humphrey Bogart está falando um francês perfeito. Como é possível?”. A mãe, Mercedes, um dos tipos inesquecíveis do livro, improvisa uma explicação: “Ah, os atores em Hollywood se dedicam só a isso, eles têm tempo. Têm professores para ensinar a falar perfeitamente qualquer língua”. Nem ela nem o menino tinham ideia de que existia um truque chamado dublagem.

O Lvro de Jô, de Jô Soares e Matinas Suzuki Jr. (Companhia das Letras; 528 páginas; 64,90 reais ou 39,90 reais em versão digital) //Divulgação

A abundância de histórias semelhantes provoca a dúvida. É o mundo que se apresenta engraçado porque está diante de um grande comediante? Ou são os olhos do comediante que tornam o mundo engraçado? O livro flui em tom de conversa, e não sem razão: tem base em conversas, entre Jô e Matinas, gravadas ao longo de horas e horas. Segue a ordem cronológica, começando pela família, infância e juventude e estendendo­-se até os primeiros sucessos no teatro, no cinema e na televisão, mas, como é conversa, com intercalações que avançam ou recuam no tempo.

José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro no dia 16 de janeiro de 1938, filho do paraibano Orlando Soares, apelidado, nunca ele próprio soube por quê, de “Garoupa”, e da carioca Mercedes, apelidada “Mêcha”. Mercedes era filha de um diretor de seguradora e de uma senhora da sociedade carioca que assumiu papel de liderança na formação do corpo de enfermeiras brasileiras enviado à cena da I Guerra Mundial. Orlando provinha de um clã inserido na turbulenta política paraibana. Um de seus ancestrais, o tio-avô Francisco Camillo de Hollanda, governador da Paraíba entre 1916 e 1920, foi descrito por Ariano Suassuna como “o homem mais ranhento que já existiu no Nordeste todo”. Jô deleita-se na descrição da parentela, na qual vamos encontrar um alentado número de pessoas de destaque em diferentes ramos. Um tio de Orlando, Orris Soares, foi o melhor amigo do poeta paraibano Augusto dos Anjos e o principal responsável pela difusão de sua obra.

Depois da morte do amigo, aos 30 anos, Orris organizou-lhe a obra póstuma. Orris foi também teatrólogo e entre seus irmãos houve um deputado federal pela Paraíba e um diplomata. Na geração seguinte, nosso já conhecido Kanela, técnico da seleção de basquete por quase vinte anos (1951-1970), e bicampeão mundial em 1959 e 1963, foi também, sem nunca ter praticado um esporte, técnico de futebol, de polo aquático e de remo. Quando técnico do Bangu, escalou como zagueiro o jovem Domingos da Guia, até então meio-campista, e com isso lhe atribuiu a posição em que se consagraria.

Orlando Soares ficou rico no mercado financeiro, e com Mercedes formou um casal relacionado com quem houvesse de relevante no Rio de Janeiro. Nisso, o pequeno José Eugênio ia conhecendo os grandes da República. O caudilho gaúcho Flores da Cunha? “De vez em quando ia jantar lá em casa”, informa Jô. Brigadeiro Eduardo Gomes, herói tenentista, duas vezes candidato a presidente? Era primo de Mercedes.

Jam session – Na Suíça, com o bongô: “Eu consigo tocar esse instrumento” Cia das Letras/Arquivo pessoal
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Em 1951, ricos que eram, Orlando e Mercedes matricularam o filho único no Lycée Jaccard, situado à borda do Lago Léman, em Lausanne, na Suíça. Ia começar para o menino de 13 anos uma fase em que às personalidades nacionais acrescentaria as estrangeiras, e aos ares do Rio de Janeiro acrescentaria os ares do mundo. Poucos serão, no meio artístico brasileiro, os que tiveram formação semelhante. Os colegas na Suíça iam dos gêmeos argentinos que azucrinavam os barbeiros ao iraniano Cyrus Esfandiary-Bakhtiari, primo da rainha Soraia, então mulher do xá Reza Pahlevi. Às vezes Soraia vinha em visita… “e era uma comoção em nosso liceu”. Numa escola próxima estudava Arabella Árbenz, filha do presidente guatemalteco Jacopo Árbenz, deposto em 1954 por artes da CIA. A bela Arabella seguiria na vida um roteiro trágico que a conduziria, de amantes como o banqueiro Phillippe de Rothschild, o empresário mexicano Emilio Azcárraga (dono da cadeia Televisa) e o toureiro Jaime Bravo, às drogas, à depressão e ao suicídio com um tiro na cabeça, aos 25 anos.

Casamento – Com a atriz Theresa Austregésilo, em 1959: Joe vira Jô Cia das Letras/Arquivo pessoal

Nas férias ele não vinha ao Brasil; os pais é que iam à Europa, hospedan­do-se na própria Suíça ou reunindo a família em Paris. Uma noite, em Paris, encontrou Orson Welles num café e foi lhe pedir um autógrafo. Bêbado, o cineasta respondeu: “Não vou dar autógrafo, leva meu passaporte”. A alegria do menino, de posse do documento, durou pouco; o pai obrigou-o a devolvê-lo. Na boate do hotel para onde os alunos eram levados, ao pé do monte Matterhorn, para a prática de esportes de inverno, ele viu uma vez um hóspede aproximar-se da orquestra, tirar um bongô da bolsa e pedir para tocar com os músicos. Pensou: “Eu consigo tocar esse instrumento”. Não demorou para que tivesse o seu bongô. Anos depois, no hotel de Lausanne em que a mãe, em visita ao filho, se hospedava, ouviu um deslumbrante som de piano e seguiu seu rastro. Era Oscar Peterson, estudando numa sala, sozinho. O pianista achou graça quando ele lhe perguntou se podia acompanhá-lo ao bongô, mas concordou. Foi apanhar seu bongô, e… “durante uns quinze minutos”, escreve Jô, “foi como se estivesse em algum reino encantado”.

O desembaraço, a rapidez de reflexos, a ousadia de insinuar-se, de atirar-se, abriam espaços e anunciavam o artista. No livro, Jô se chama de “exibido”. Escreve, sobre um período em que dava seus “primeiros pitacos” em apresentações amadoras: “Não ganhava dinheiro, mas ganhava em experiência, em domínio do público (…) e, além disso, não economizava esforços em me exibir”. Em outro momento fala em “volúpia de aparecer” e acrescenta: “Essa é uma característica fundamental do ator e do performer: ele tem que atuar para as pessoas, tem que aparecer”.

Televisão – Ao fundo, como o mordomo de Família Trapo: o primeiro papel de destaque no meio que o consagrou de vez TV Record/

Em 1956, a boa fortuna abandonou a família Soares. Os negócios de Orlando entraram por um redemoinho que lhe sugou até os últimos recursos. Aos 18 anos, o filho que sonhava prosseguir os estudos em Oxford ou Cambridge teve de voltar para o Brasil. Trazia, ao desembarcar, ele que fora como “Zezinho”, o apelido de “Joe”, que ganhara dos companheiros na Suíça. Na fase de indefinição que se seguiu, alternava a exibição, entre amigos e em rodas boêmias, de seus dotes de bongonista e de humorista com empregos ocasionais. Durante um ano trabalhou numa agência de turismo chamada Castelo, onde era conhecido como “o Joe da Castelo”. Conseguiu vender só duas passagens — para Belo Horizonte, de trem. E se tivesse vendido mais? E se sua simpatia, a experiência de pessoa viajada e o conhecimento de línguas o tivessem tornado um magnata do setor de turismo? O rosto rechonchudo do Joe da Castelo seria hoje familiar aos leitores dos suplementos de turismo e das páginas de economia.

Não deu. A vocação era para as páginas de artes e espetáculos, nas quais, atirando-se aqui, atrevendo-se ali, foi abrindo caminhos. No cinema o principal de seus primeiros trabalhos foi na chanchada O Homem do Sputnik, de 1959, dirigida por Carlos Manga, com Oscarito, Cyll Farney e Norma Benguell. Nos créditos fica-se sabendo que o espião americano do filme foi interpretado por “Joe Soares”. A decisiva operação de extirpar o “e” do Joe deve-se à atriz Theresa Austregésilo, que entra na página 238 do volume para não mais sair. Os dois casaram-se ainda em 1959, e nos primeiros anos quem sustentava a casa era ela. Jô espalhava que tinha dado o golpe do baú e ela retrucava: “Bobinho. Ele não sabe que quem deu o golpe do baú fui eu”.

Outra decisiva atuação de Theresa ocorreu na mudança do casal para São Paulo, onde ela achava que o marido teria melhores oportunidades. Vão desfilar pelo livro, a partir daí, nomes de teatro como Ruth Escobar e Juca de Oliveira, de televisão como Nilton Travesso, Manoel Carlos e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, e tanto do teatro como de televisão como Silveira Sampaio e Túlio de Lemos, em cuja companhia o José Eugênio que virara Zezinho e que um dia fora Joe se tornaria cada vez mais Jô Soares. Seu primeiro papel de destaque na televisão foi como o mordomo de Família Trapo, na TV Record, estreado em 1967, com um elenco capitaneado por Otello Zeloni, Renata Fronzi e Ronald Golias. Estamos no fim do volume. Para o próximo ficam o Jô dos personagens de Viva o Gordo e o das entrevistas.

Publicado em VEJA de 29 de novembro de 2017, edição nº 2558

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