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A utopia caiu na real

Os jovens presos nas manifestações queriam derrubar a ditadura; mais de 30 anos depois, assumiriam o poder, mas seriam presos de novo – agora, por corrupção

Por Luisa Bustamante - Atualizado em 31 jan 2018, 15h14 - Publicado em 29 dez 2017, 06h00

Mesmo agora, com a internet disseminando ideias, atitudes e movimentos por todo o planeta em tempo real, o Brasil às vezes demora a engatar a primeira. Imagine em 1968, quando as notícias corriam, quase lentamente, pelo rádio e pela TV. Enquanto o Ocidente, sobretudo, era varrido pelas mentes e pelos discursos da contracultura, aqui (como, aliás, em toda a América Latina vergada sob regimes totalitários), tirando uma ou outra manifestação artística nas grandes cidades, o vento de renovação demorou a soprar. No Brasil de 1968, a ditadura militar transpunha a fronteira entre envergonhada e escancarada, na qualificação definitiva do jornalista Elio Gaspari. A mobilização dos jovens, quando havia, concentrava-se em derrubar o governo. “A visão marxista privilegiava a luta de classes. Qualquer movimento alheio a isso era considerado secundário, enfraquecedor. A ideia dominante na esquerda era que as bandeiras erguidas pelos protestos de 1968 não tinham expressão”, diz o jornalista Fernando Gabeira, que sabe do que está falando: foi guerrilheiro, preso político, exilado e, depois, deputado federal. Hoje, é um “liberal não radical” que se afastou dos partidos.

A utopia daqueles tempos descambou em luta armada, mortes, perseguições e tortura. Foi ali que nasceu também, empunhando a bandeira do idealismo e da igualdade social, uma nova geração de políticos. O 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, convocado para 12 de outubro em Ibiúna, no interior de São Paulo, acabou antes de começar, com cerca de 1 000 estudantes presos — entre eles José Dirceu e José Genoino, líderes universitários de então. “O desmantelamento do congresso da UNE assinalou o fim do movimento estudantil, já em declínio, e criou condições para a migração de militantes para as organizações empenhadas na luta dos grupos armados contra a ditadura”, afirma Daniel Aarão Reis, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense. Dirceu e Genoino seguiram esse caminho, foram presos e exilados. Quando enfim as eleições voltaram a ser livres, os dois, próceres do Partido dos Trabalhadores, ocuparam altos cargos no governo que se propunha a instaurar uma nova ordem no país. Triste epílogo das mazelas que predominam até hoje na política nacional: acabaram, ambos, presos de novo — desta vez por vexaminosa corrupção. Dirceu pegou dupla pena, no mensalão (sete anos e onze meses) e na Lava-Jato (trinta anos e nove meses). Indultado no primeiro, aguarda recursos do segundo em liberdade, de tornozeleira. Genoino foi condenado no mensalão a quatro anos e oito meses de cadeia, cumpriu oito meses e teve a pena extinta em 2015.

“Deu errado porque muitos políticos se utilizaram de alianças com setores atrasados, adeptos de mecanismos antirrepublicanos. O PT surgiu propondo uma visão ética de fazer política. Concluído o longo período do partido no poder, ficou claro que se tratava da mesma forma antiga de sempre”, comenta Gabeira. Aarão aponta um paralelo na trajetória de Dirceu e companhia, da guerrilha ao Congresso: a tendência a preferir o caminho mais curto. A luta armada era um atalho para a tomada do poder. As alianças sem princípios foram, de novo, um desvio para ocupar o governo e nele se perpetuar. “Abandonaram princípios e rasgaram programas para trilhar esse caminho mais rápido. A mixórdia que se seguiu foi consequência dessa opção. Pegar atalhos tem sempre um custo alto na política e na vida”, diz o historiador. Gabeira concorda: “Tudo se justificava pela ideia de que, como os fins eram nobres, podiam-se usar todos os meios”. Deu no que deu.

Em que pese a lerdeza do Brasil em embarcar em viradas históricas, o fim da ditadura enfim permitiu que aqui chegasse o principal legado de 1968 à política: de atividade restrita a um grupinho seleto, ela passou a ser assunto da população inteira. “O pessoal é político”, slogan do feminismo na época, ampliou-se para abranger as relações familiares, as relações entre homem e mulher, os direitos civis. Ao entrar para o dia a dia das pessoas, a política tornou-se alvo do olhar coletivo das sociedades. “Com a politização das relações, a política se espalhou para muitos recantos da vida comum. Demorou, mas hoje é um fenômeno muito presente, estimulado pelas mídias eletrônicas”, diz Gabeira. O Brasil da Lava-Jato carrega, sim, as marcas de 1968 — as ruins, mas também as boas.

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Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2018, edição nº 2563

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