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A rainha da festa

A cantora mais popular do país fala dos filhos, comenta os problemas com o irmão que foi seu empresário e desmente qualquer rivalidade com Claudia Leitte

Neste sábado 8, Ivete Sangalo sobe ao palco do Allianz Parque, em São Paulo, para a gravação de mais um DVD ao vivo. Críticos podem acusar a repetição de uma fórmula nesses shows gravados, mas ela não liga. Aos 46 anos, Ivete é a cantora mais popular do país (aliás, esgotaram-se rápido os 40 000 ingressos do show). Em 25 anos de carreira, consagrou-se como rainha do Carnaval, nas ruas de Salvador e nos bailes do país todo. Em entrevista em um hotel em São Paulo, descansando entre um compromisso e outro, de roupão, Ivete defendeu sua opção pela música festiva — nunca tentou se lançar como cantora da MPB dita “séria” — e falou de sua vida familiar, inclusive a complicada relação com seu irmão Jesus Sangalo, demitido do cargo de empresário da cantora por supostos desvios. A seguir, sua entrevista.

A senhora é um fenômeno de popularidade, mas nunca lançou um disco que a consagrasse como grande intérprete. O que pensa disso? Entendo o que você quer dizer. Eu poderia ter uma abrangência maior se por acaso cantasse em outro estilo. Mas não me preocupo com isso. Claro que adoraria gravar um disco de forró, de samba, tenho milhões de possibilidades como intérprete. Mas gosto do que faço, e o trabalho atual demanda muito do meu tempo. Gravo aquilo de que gosto, e minha característica é popular. Pode parecer que estou atendendo às regras do mercado, mas nunca fui coagida a fazer coisa alguma por direcionamento dos outros. Por exemplo, aceitei gravar um disco acústico em Trancoso, no sul da Bahia, desde que fosse diferente dos outros discos do gênero. E sempre voltado para o trabalho rítmico, que é o meu barato.

Há preconceito em relação a cantores mais festivos que tentam se bandear para a MPB? Honestamente, também não me preocupo com isso. Estou tranquila e feliz com meu público. Acho que compartilhamos um sentimento, uma ideia. Na casa onde fui criada, ouvia-se de tudo, sem nomenclaturas. Xangai não era separado de Gal Gosta, muito menos de Menudo, que eu ouvia porque os caras eram gatinhos. Você não tem de criar regras para gostar de música.

Existe a necessidade de se aliar a novos artistas e gravar composições de nomes ascendentes do samba e do forró para não ficar de fora do mercado? Não é uma questão de mercado, muito menos de vender a alma. Eu me uno a esses nomes porque tenho necessidade de me inteirar do trabalho deles e de renovar o meu. Por exemplo, o rapper Criolo participou de um tributo ao cantor Tim Maia por sugestão minha. São parcerias que me inspiram.

Em 2010, a senhora gravou um DVD no Madison Square Garden, em Nova York, de olho em uma carreira internacional. Por que não continuou com esse processo? Aquilo foi um sonho de adolescência que sempre quis realizar. Nunca houve a pretensão de ter uma carreira internacional, pelo menos nos moldes que imaginamos que seja uma carreira internacional. Vou a vários lugares do mundo onde sei que existe um público brasileiro. Portugal e França, por exemplo.

O mercado de CDs e DVDs deu lugar ao download e, mais recentemente, ao streaming nas plataformas vir­tuais. Como a senhora se adaptou a essa mudança? Se você quer que sua música seja consumida, tem de se adaptar às novas ferramentas. Minha única esperança é que ainda existam pessoas dispostas a ouvir música. Em casa, mantenho o ritual de colocar o CD no aparelho — hábito que meu filho mais velho, Marcelo (9 anos), também assimilou —, mas não estou presa às tradições. Gosto da praticidade das novas ferramentas: fazer playlist, salvar a música, estar atenta às sugestões da plataforma. Do ponto de vista comercial, meu empresário e minha gravadora querem que eu trabalhe uma música por vez no lugar de investir em álbuns cheios. Estou achando essa experiência incrível. Sempre gostei de ir às lojas de disco, ver os compactos, achava aquilo tão inteligente. Mas o streaming dá mais liberdade ao artista. Antigamente, você tinha de encontrar uma canção para impulsionar um disco inteiro. Hoje estamos mais livres.

“Não gosto nem muito menos entendo de política. As pessoas têm suas escolhas e não me sinto apta, como artista, a falar sobre isso. E essa posição é mais punk do que fazer o que o outro manda”

Por que a gravidez de suas filhas gêmeas, Marina e Helena — que nasceram no Carnaval deste ano —, se deu por fertilização in vitro? Porque eu tinha perdido alguns nenéns antes. Engravidava e perdia. Perdi um antes do Marcelo. Até pensei em insistir, achei que deveria tentar uma gravidez por vias normais, sabe? Mas, depois de perder acho que mais dois, pensei: “Não, vou fazer dessa maneira, porque quero ter filhos”. E rolou, graças a Deus. A ideia era ter só mais um filho. Mas, por causa da idade e da probabilidade, foram colocados quatro embriões. A gente queria que pelo menos um desses quatro vingasse. Foi muito louco quando comprei um desses testes de farmácia e descobri que estava grávida. Na hora do ultrassom, a médica parou o procedimento e começou a chorar. Falei: “Meu Deus, me diga o que aconteceu”. E ela: “São dois!”.

Foi uma gravidez tranquila? Foi, apesar de requerer um pouco mais de cuidado. Não podia fazer muitos passos de dança nem me agachar demais. Mas não senti nenhum tipo de dor. Até na praia eu andei.

O que mudou em sua rotina profissional depois da maternidade? A natureza é para todo mundo. Quando o sino bate… Reduzi o número de shows porque desejo estar inteira para meus filhos. E passei a otimizar meus trabalhos. O que eu fazia em três dias, faço em um e volto para ficar com eles. Acho que isso foi melhor. Agora, em férias, vamos todos viajar juntos. Estou me programando para, quando as meninas tiverem uns 3 anos, viajar para a Europa no verão e assistir aos festivais de música de lá. É o sonho da minha vida.

Jesus Sangalo, seu irmão e ex-empresário, desligou-se de sua empresa de maneira pouco amistosa. Ele já se queixou, em um programa de TV, de que a irmã o esqueceu. Vocês ainda se falam? Nunca brigamos, apenas paramos de trabalhar juntos. Existe uma discussão de relacionamento que ele decidiu tornar pública. Respeitei isso porque todo mundo tem seus direitos. Não é porque sou uma cantora famosa que apenas eu tenho direito à palavra. Mas não tenho absolutamente nada para falar do meu irmão em público. Porque o que eu tiver de resolver, vou resolver pessoalmente com ele. Ninguém mudará o fato de que somos irmãos.

Ele conhece seus filhos? Sim, ele conhece meus filhos. Mas é uma entrevista de música ou pessoal? Acho essa abordagem muito íntima. “Passou o Natal com você, foi ao seu aniversário, deu presente?” É como perguntar quantas vezes por semana eu faço sexo com meu marido.

Então vamos lá: quantas vezes por semana a senhora faz sexo com seu marido? Aí você não vai suportar a resposta! É muita loucura! Mas, sobre meu irmão, não tenho nada para falar a respeito que possa se tornar público. Sei o que ele representa para mim, mas, no meio do nosso relacionamento, tivemos discussões profissionais e pessoais. Um dos problemas profissionais virou uma questão pessoal, e eu tenho de lidar com isso. Vou lhe dizer aqui, para não ficar devendo a resposta. Tento ser muito coe­rente com minhas coisas. Quando elas fogem ao controle, a gente tem de parar o jogo e tirar o time de campo. Para a saúde da minha família, eu e meu irmão tivemos de recapitular nosso relacionamento.

O clima foi muito inflamado nas eleições presidenciais, e os artistas foram cobrados por posicionamentos políticos. Como a senhora lidou com essa realidade? Tenho muito medo do sensacionalismo das minhas próprias palavras. Não gosto nem muito menos entendo de política. E o que eu penso não deve ser dito num sistema de disputa. As pessoas têm suas escolhas, e não me sinto apta, como artista, a falar sobre isso. Cada um tem sua realidade. E acredite: essa posição que adoto é mais punk do que simplesmente fazer o que o outro manda.

A senhora é popular entre o público gay, que cobrou um posicionamento seu contra Jair Bolsonaro e suas declarações homofóbicas. Como reagiu a isso? Como disse, não entendo de política. Mas adoto, todos os dias, a minha forma de pensar. Isso é que importa. Meu show não tem catraca, não tem medidor de altura, de tamanho, nem de sexo ou religião. Não acredito que eu tenha o que acrescentar numa eleição regida pelo ódio. Não faço parte disso.

Há muitos rumores e histórias sobre uma suposta rivalidade entre a senhora e Claudia Leitte, que vai participar de seu show em São Paulo. Já se disse até, por exemplo, que a senhora apareceu na janela da maternidade, no Carnaval, só para ofuscar Claudia, que vinha sendo apontada como o destaque da festa. É verdade? Eu? Ave Maria, de jeito nenhum! Tenho tanto amor e carinho pela Claudia. O boato de que não somos amigas nasceu porque algumas pessoas estranharam o fato de não sermos vistas juntas. Ora, não é porque somos artistas que temos de sair para tomar sorvete. Cada um tem sua família, seus amigos. Nossa profissão também é muito corrida, é difícil aprofundar qualquer tipo de relacionamento. Agora, nosso relacionamento tem se aprofundado. Creio que a maternidade ajudou muito nisso. Nunca gostei do que falavam sobre essa suposta rivalidade, nunca gostei das pessoas que acham que falar mal da Claudia perto de mim pode ser uma espécie de chave para entrar no meu mundo. Nas vezes em que isso aconteceu, sempre achei a tal pessoa um lixo, alguém que perdeu a oportunidade de ter uma presença positiva na minha vida. Vai ser linda a participação da Claudia. Demorou muito para acontecer.

“Silvio Santos fez uma piada idiota e desnecessária com Claudia Leitte. O constrangimento foi mais dele do que dela. Pelo cara que ele é, Silvio Santos tem de saber que fez uma colocação infeliz”

Aliás, recentemente, quando Silvio Santos fez, ao vivo no SBT, comentários inapropriados sobre o vestido de Claudia Leitte, reapareceu, nas redes sociais, um vídeo em que o apresentador tentou o mesmo com a senhora, que tirou de letra. Não somos robôs programados para fazermos todos a mesma coisa. Por acaso, naquele momento, tive jogo de cintura. Poderia não ter tido.

E o que a senhora achou da atitude de Silvio com Claudia? O que o Silvio Santos fez não foi engraçado. Foi uma piada idiota e desnecessária. O constrangimento foi mais dele do que dela. Pelo cara que ele é, pelo convívio que ele tem com a gente, Silvio Santos tem de saber que fez uma colocação infeliz. Logo que eu soube do acontecido, mandei uma mensagem para Claudia, às 3 da manhã. Perguntei como ela estava, e ela respondeu que estava tudo bem, que estava ao lado da família. Ressaltei que o importante era que ela estava linda, que as pessoas a amavam e que os filhos tinham muito orgulho dela.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612