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“A qualidade subiu”

Criador da Netflix fala das mudanças na indústria do entretenimento provocadas por sua empresa, do vício em séries e dos casos de assédio em Hollywood

Talvez você nunca tenha ouvido este nome: Reed Hastings. Mas é provável que ele já tenha sido responsável por algumas horas do seu lazer. Desde 2007, o matemático, cientista da computação e ex-militar americano de 57 anos, que vive no Vale do Silício com a mulher e dois filhos, vem chacoalhando a indústria do entretenimento com o seu negócio: a Net­flix. Hastings fundou a empresa, da qual é o CEO, em 1997, como um serviço de entrega de DVDs. Contudo, já tinha a ideia de um dia distribuir filmes e séries pela internet. A evolução para o serviço de strea­ming ocorreu há onze anos. Hoje, a Netflix tem, nos Estados Unidos, acima de 50 milhões de clientes, mais do que todos os provedores de TV a cabo somados. No mundo, são 117 milhões, em 190 países — a companhia não divulga números do Brasil —, que assistem a 140 milhões de horas diárias de programas e filmes. Na entrevista a seguir, concedida no escritório brasileiro da companhia, em São Paulo, o executivo, dono de uma fortuna de 3 bilhões de dólares, fala da revolução do mercado em que atua, do futuro da TV e da demissão do ator Kevin Spacey — acusado de assédio sexual —, protagonista de uma das séries mais badaladas da Netflix, House of Cards.

Um documento da Netflix diz que o serviço compete não só com a TV tradicional mas também com redes sociais, videogames — tudo o que toma nosso tempo. Qual é a estratégia para vencer a disputa?Jamais ganharemos todo o tempo das pessoas. Indivíduos exercitam-se, cozinham, brincam com os filhos; fazem coisas fundamentais que nos vencem nessa competição. Agora, nossa rivalidade direta é com as horas gastas na frente das telas — um passatempo que tem ganhado em qualidade e leque de ofertas. Quando se pensa em atividades como cozinhar e exercitar-se, elas se dão praticamente da mesma forma há dez, vinte, trinta anos. Já no âmbito das telas, a competição está cada vez mais aprimorada, tanto nas versões móveis, como os smartphones, quanto na televisão. Há, hoje, mais conteúdo de qualidade, maneiras variadas de vê­-lo e uma evolução na personalização do entretenimento, que se volta para os gostos de cada um de nós. Está se formando um cenário interessante que faz com que conteúdos sejam mais interativos e acessíveis. Destacam-se as possibilidades de ver algo na hora e no lugar em que se quer, e de compartilhar o que se acha de um filme ou série com amigos igualmente na hora e no lugar em que se desejar. Essa intensificação da disputa teve como efeito a melhora geral das produções feitas não só por nós mas também por rivais como a HBO e a TV Globo.

É uma guerra da qual, no futuro, só sobrará um vencedor?A internet está permitindo que mais histórias sejam contadas. Não apenas por nós, pela HBO ou pela Globo. Nesse quesito, enfrentamos também, por exemplo, o YouTube e os vídeos do Facebook. Como há uma variedade maior, também é necessária uma gama igualmente maior de métodos de distribuição. Nos Estados Unidos, a Net­flix passou de zero inscrito há onze anos para 50 milhões, o que representa metade das casas americanas. Poderia se cogitar que a HBO, nossa rival direta, teria sofrido com isso. Foi o contrário. Seu público aumentou de 30 milhões para 35 milhões de pessoas. Há espaço para todo mundo numa indústria que só se expande.

Mas será o fim da TV tradicional?  Em vinte anos, a TV na internet substituirá de vez o que se chama de TV linear. Assim como o celular está acabando com o telefone fixo. Podem até questionar: mas e as partidas de esportes ao vivo? A Net­flix continuará a focar filmes e séries. Com certeza, porém, haverá quem na internet, como o Facebook, transmita esportes, função hoje exercida pela TV de formato antigo.

Por que surgiu essa necessidade de transformar radicalmente a indústria do entretenimento?Se uma empresa tenta ser disruptiva, raramente dá certo. Nossa missão sempre foi fazer nosso cliente feliz. Só que isso acabou por ser revolucionário para o mercado. Mas esse não era nosso objetivo. A meta sempre foi, repito, deixar as pessoas mais felizes com nosso serviço. E, se não fôssemos nós a oferecer a opção de assistir sob demanda, com a transmissão de filmes e séries em qualquer lugar, alguém teria feito isso e nos passado a perna.

A Netflix entregava DVDs. Quando o senhor percebeu que a jogada seria mudar o rumo para o consumo de vídeos pela web?Uso a internet desde o seu início, nos anos 80. Criei a Net­flix em 1997, depois que um amigo me falou sobre o DVD, uma tecnologia que estava surgindo naquele momento. Na hora saquei que o DVD era digital — é daí que vem o primeiro D da sigla, afinal. Então, criar um serviço de entrega de DVDs foi uma forma incipiente de compartilhar arquivos digitalizados, numa simulação do que hoje é a Netflix. Aí, quando o YouTube foi lançado, em 2005, notei que era hora de mover para a internet nossos filmes e séries, pois a tecnologia estava preparada para isso. Estreamos o streaming em 2007.

Qual foi o principal impacto que a Net­flix teve na forma como se consomem produtos de entretenimento?Alguns veem o binge-watching (o hábito de assistir a episódios de uma série em sequência) como uma criação nossa. Fico feliz com a associação, mas ela não é acurada. Eu mesmo sou adepto do binge-watching desde a época dos boxes de DVD, quando passava uma noite inteira vendo Entourage. Antes da TV e do rádio, que possuem muitas limitações de transmissão, como a determinação de ter uma grade de programação, o maior incentivador de binge-watching eram os livros. Faz séculos que é possível passar uma madrugada inteira devorando um livrão, capítulo atrás de capítulo. Por isso acredito que os vídeos sob demanda, como os da Net­flix, representam uma volta a costumes antigos. A verdade é que o ser humano não muda muito, mesmo que o cenário ao seu redor se transforme rapidamente. Sempre falamos de cultura, sempre tivemos interesses. Talvez o maior impacto da Net­flix seja na forma como se compartilham esses interesses. Hoje, não é preciso mais marcar um horário com os amigos para assistir a um episódio de uma série em casa. Cada um pode ver quando quiser, e compartilhar suas opiniões, também quando bem entender, pelas redes sociais. Assim, os papos de elevador deixaram de versar sobre o clima e passaram a ser mais interessantes, acerca de um filme da Net­flix, por exemplo.

Há estudiosos que argumentam que a Netflix tornou as pessoas mais viciadas em séries e filmes, como se fosse uma droga moderna. Aliás, alguns episódios de Black Mirror, produção que leva sua marca, criticam esse aspecto dos produtos digitais.Toda nova tecnologia representa algo como três passos para a frente para a civilização, mas um para trás. O Uber facilitou o transporte urbano, só que também desafiou a indústria dos táxis, não funciona bem em cidades pequenas — e por aí vai. A Netflix é majoritariamente positiva, mas às vezes pode ter elementos negativos. Alguém pode acabar assistindo a séries e TV demais, viciando-se no hábito. Assim como há pessoas que se viciam em exercícios físicos ou em álcool — costumes que podem ser proveitosos ou podem ser danosos. As pessoas se adaptam às novidades e aprendem a lidar com elas. Em nossa defesa, posso dizer que eliminamos por volta de 100 horas de consumo individual de anúncios por nossos clientes por ano, que era o que se via na TV. Ou seja, deixamos as pessoas mais produtivas em relação ao próprio tempo.

Existe alguma produção que o senhor se arrependa de ter lançado na Netflix?Pelo conteúdo, não. Nosso cálculo para o sucesso leva em conta o custo de algo em comparação com a quantidade de pessoas que veem esse algo. Por exemplo, a série Sense8 era ótima. Mas tinha poucos espectadores, em comparação com seu altíssimo custo. Por isso, tivemos de cancelá-la.

Qual a sua série preferida?A animação BoJack Horseman. Ela mostra uma visão cínica de Hollywood.

Por falar em Hollywood, neste ano a Netflix terá um longa-metragem, Mudbound, disputando quatro Oscar. Como sua criação tem transformado a maneira de fazer cinema? Imagine que somente restaurantes pudessem servir bifes. A indústria da gastronomia iria prosperar, visto que a ninguém mais seria permitido cozinhar esse prato em casa. Só que aí aparece alguém e anuncia: “A partir de agora, é possível fazer bife em casa”. Os restaurantes são os cinemas. A Netflix é esse “alguém”. Antes, para ver um filme, era preciso ir à sala de cinema. Chegamos para anunciar que também se deve ter a opção de vê-lo em casa. Assim, as produções passaram a ser feitas para ambas as telas, com adaptações adequadas a isso. Os empresários da indústria do cinema se queixam, mas terão de aceitar. Ver um filme de cinemão continuará a ser uma experiência diferente, ao menos.

Por que a Netflix se sentiu na obrigação de demitir o ator Kevin Spacey, astro da série House of Cards, ao ser denunciado por assédio sexual?Houve múltiplas denúncias contra Spacey. Se alguém fosse assistir à nova temporada de House of Cards, só iria pensar nisso ao vê-lo em cena. Por esse motivo, achamos melhor afastá-lo.

No meio cinematográfico, a atitude de Spacey já era conhecida, assim como a do produtor Harvey Weinstein, também acusado de assédio. A atual reação a isso, simbolizada por movimentos como o #MeToo, seria hipócrita?As vítimas sofriam em silêncio, por medo. Agora, em especial com a força dada pelas redes sociais, passaram a gritar, com coragem. Isso alterou o rumo do debate — e atores, diretores e produtores precisam se ajustar às novas condutas que se estabelecem. Pode-­se criticar ou celebrar esse progresso. Escolho a celebração.

Muitos artistas aclamados do passado, como o escritor americano ­Ernest Hemingway, possuíam falhas morais que hoje poderiam ser condenadas nas redes sociais. O que deve sobressair: a qualidade da arte ou os defeitos de conduta dos artistas?É verdade que gênios do passado — e outro exemplo é Picasso — tinham atitudes que seriam criticadas pelos padrões modernos. Mesmo assim, eles continuam a ser artistas incríveis. Só que, quando se faz uma arte nova, há uma responsabilidade maior, para que o resultado reflita tanto os princípios artísticos quanto os padrões morais contemporâneos. Por isso, faz sentido a sociedade expurgar aqueles que adotam posturas hoje inaceitáveis.

Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2018, edição nº 2569