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A paciência é combustível?

Antônio Vieira e Elizabeth Bishop confrontam a guerra brasileira

Por João Cezar de Castro Rocha - 8 Jun 2018, 06h00
  • Junho de 2013: não foram os 20 centavos, eis o que sabemos.
  • No Sermão da Sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1665, Antônio Vieira alvejou os profissionais do binarismo: “Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu”.
  • Em 1962, Elizabeth Bishop publicou Brazil, livro saído na Biblioteca Mundial da revista Life. Suas observações acerca do povo brasileiro merecem uma longa citação: “Qualquer pessoa em visita ao Brasil concordaria que os brasileiros, os cidadãos comuns, são um povo maravilhoso, alegre e paciente — de uma inacreditável paciência. Vê-los esperando em filas por horas, literalmente por horas, em filas cujo zigue-zague, esticado, equivaleria a duas ou três quadras, só para embarcar num ônibus avariado e dirigido da maneira a mais imprudente com destino a suas minúsculas casas de subúrbio, onde as ruas provavelmente ainda aguardam o conserto e o lixo ainda não foi recolhido, onde talvez esteja faltando água — ver isso é assombrar-se com tamanha paciência. Outros povos sob provações semelhantes sem dúvida fariam uma revolução por mês”.
  • Deposto em 1945, Getúlio Vargas candidatou-se à Presidência da República em 1950. Os ânimos se extremaram. Golpista erudito, Carlos Lacerda ambientou o sofista Górgias à cena política tupiniquim: “Esse homem não pode ser candidato; se se candidatar, não poderá ser eleito; se for eleito, não poderá tomar posse; se tomar posse, não poderá governar”.
  • Antônio Vieira ofereceu uma alternativa ao universo belicoso das polaridades impermeáveis: “Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário?”.
  • Getúlio Vargas venceu as eleições presidenciais com robustos 48,70%. Foi empossado, porém governar não foi nada fácil. Dono da Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda foi pioneiro nas fake news, lançando infinitas denúncias falsas. Em 24 de agosto de 1954, Vargas realizou seu último ato político: o suicídio, retardando em dez anos o triunfo do golpe. Lacerda apoiou os militares em 1964, chegando a fantasiar-se de soldado à frente de hipotéticas barricadas no Palácio Guanabara. Em tempo: foi cassado em 1968, confirmando o paradoxo dos golpistas — eruditos ou poetastros.
  • Rubem Fonseca imaginou um dos fechos mais impactantes do romance brasileiro. O suicídio de Vargas deu origem ao que parecia ser uma revolução popular — mas o ânimo não resistiu muito mais do que uma longa jornada noite adentro. Eis o parágrafo final de Agosto: “Foi um dia ameno, de sol. À noite a temperatura caiu um pouco. A máxima foi de 30,6 e a mínima de 17,2. Ventos de sul a leste, moderados”. No Brasil, a natureza neutraliza a história?
  • E se um dia a “inacreditável paciência” entrar em combustão?

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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