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A morte de Alberto Goldman e Elton Medeiros

Ex-governador se tratava de câncer. O sambista teve complicações decorrentes de uma pneumonia

Para Alberto Goldman, a vida só tinha graça se fosse na contramão, corajosamente, e sempre atrelada a um provérbio judaico afeito a traçar sua trajetória pública, que foi do marxismo à social-democracia: “O mais difícil é não fazer nada”. Estudante da Escola Politécnica da USP, aos 19 anos ingressou no Partido Comunista Brasileiro. Foi duas vezes eleito deputado estadual pelo MDB, durante a ditadura militar, entre 1971 e 1978. Depois, cumpriu dois mandatos na Câmara Federal, em Brasília, ainda pelo MDB. Entre 1992 e 1993 foi ministro dos Transportes do governo de Itamar Franco. Já no PSDB, sigla para a qual se transferiu em 1997, foi eleito deputado em 1998 e 2002. Deixou o Congresso, em 2006, para concorrer como vice ao governo do Estado de São Paulo, na chapa de José Serra. Quando Serra saiu do cargo para tentar o Planalto, virou governador. “Goldman foi sempre uma grande pessoa que nunca se aproveitou da vida política”, disse Fernando Henrique Cardoso.

Como realmente não tirava vantagem, brigou com João Doria quando o atual governador paulista tomou conta do PSDB e o ameaçou de expulsão, depois de chamá-lo de “fracassado, por viver de pijamas em casa” (Doria declarou luto oficial de três dias pela morte do figadal oponente). No segundo turno das eleições presidenciais de 2018, contra a maré de muitos de seus pares, Goldman declarou voto em Fernando Haddad, do PT, a contragosto, porque lhe soava inaceitável que Jair Bolsonaro, defensor do regime militar imposto em 1964 e das torturas, virasse presidente. Morreu em 1º de setembro, aos 81 anos. Fazia tratamento para um câncer neuroendócrino na região cervical. Não sobreviveu a uma hemorragia cerebral.


Na caixinha de fósforos

“A SORRIR” – Medeiros, carioca da gema: melodias antológicas

“A SORRIR” – Medeiros, carioca da gema: melodias antológicas (./.)

Com dificuldade de locomoção e cego, Elton Medeiros pisou em um estúdio pela última vez no fim de 2016. Ele fez uma única exigência, que causou estranheza: queria cantar sem o acompanhamento de violão ou de qualquer outro instrumento de harmonia. E a voz rascante comoveu a todos. Presente na ocasião, Hermínio Bello de Carvalho, um de seus parceiros, diz: “Não precisava de mais nada mesmo. A harmonia vivia dentro dele”. Medeiros gravou seu nome no panteão dos grandes sambistas brasileiros pelo rigor que imprimia a melodias antológicas, como a de O Sol Nascerá (“A sorrir / Eu pretendo levar a vida / Pois chorando / Eu vi a mocidade perdida”), música-­tema da abertura da novela Bom Sucesso, da Globo, um dos vários exemplos de sambas que produziu na década de 60 em dobradinha com Cartola. Compôs clássicos ao lado de Zé Keti e Paulinho da Viola. Como um autêntico carioca que leva o samba na veia, característica que adquiriu cedo nos blocos de rua, era sempre visto batucando numa caixinha de fósforos. Morreu na terça-feira 3, no Rio, aos 89 anos, de complicações decorrentes de uma pneumonia.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651