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A guerra no Jardim do Éden

Não existe solução mágica na Síria — nem protestos contra russos

Para quem torcer na guerra da Síria? A escolha é tão complicada, diante de um regime monstruoso que só não é pior que seus substitutos radicais, que muitos recorrem ao pensamento mágico: invocam uma interferência da “comunidade internacional” para acabar com a mortandade, como se fosse possível. Em primeiro lugar, não existe “comunidade internacional”. A ONU é um reflexo da realidade da distribuição do poder no mundo. E a realidade é que funciona como um condomínio em que os donos das coberturas — as potências vencedoras da II Guerra Mundial com arsenal nuclear — podem vetar qualquer decisão tomada pelos demais moradores. A Rússia é a dona de uma das coberturas e não vai deixar passar nada na assembleia de condôminos que interfira num dos episódios finais do capítulo atual da guerra civil, a retomada da última área de Damasco em poder de forças rebeldes.

Em segundo lugar, mesmo que existisse, o que faria a “comunidade internacional”? Uma intervenção em massa de forças de paz? Onde? Desde 2012, um programa de computador criado para a fundação do ex-presidente Jimmy Carter detectou mais de 100 000 “eventos beligerantes” na Síria.

Nessa miríade de complexidades, até vítimas reais são usadas como propaganda de guerra. As cenas que chegam de Ghuta, a cidade da periferia de Damasco que desperta atualmente a comiseração mundial, mostram mais do que o desespero. As mulheres todas usam o véu bem fechado, como um capacete, sinal de que estão sob a influência do islamismo fundamentalista. O sofrimento de criancinhas chorando, feridas, sangrando, cobertas de pó de prédios demolidos, já é suficientemente insuportável, mas os autores das filmagens muitas vezes acham que precisam aumentar a dramaticidade. Chegam a mostrar flagrantes que parecem simulados de pequenos corpos sendo desenterrados de escombros.

Usar a população civil como escudo e até como isca para atrair a simpatia do público externo é uma tática cruel e comum. Não ajudou o Estado Islâmico, em grande refluxo. Não está ajudando os rebeldes fundamentalistas, que diferem dele em apenas alguns graus. E tem um “defeito” fundamental: a Rússia apoia o outro lado, e as grandes manifestações de protesto que costumam encher as ruas de Londres ou Nova York obedecem à delirante lógica da esquerda segundo a qual os russos “herdaram” o manto anti-­imperialista. A última causa internacional que mobilizou manifestantes em Londres foi a inauguração da nova embaixada americana. O alvo da ira, claro, era Donald Trump.

Com a tranquilidade de quem existia num mundo sem o conceito de politicamente correto, Mark Twain escreveu em A Viagem dos Inocentes que Damasco é “o mais fanático purgatório maometano da Arábia”, com o povo “mais feio que já vi”. Mas é também “a pérola do Oriente, o orgulho da Síria, o mítico Jardim do Éden, a terra de príncipes e gênios das Mil e Uma Noites, a mais antiga metrópole da Terra, a única cidade do mundo que manteve seu nome e seu lugar e contemplou serenamente enquanto os reinos e impérios ao longo de quatro mil anos floresceram, desfrutaram de sua curta temporada de orgulho e pompa, e depois desapareceram”. Outros passarão, Damasco continuará.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573

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