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A economia da violência

Como não há dinheiro para tudo, que se comece gastando no importante

Por André Lahóz Mendonça de Barros - 16 mar 2018, 06h00

Está completando cinquenta anos a publicação de um pequeno artigo acadêmico que, a seu modo, mudou a economia. “Crime e castigo: uma análise econômica”, de Gary Becker, professor da Universidade de Chicago que mais tarde ganharia o Prêmio Nobel, foi a primeira reflexão econômica sobre a atividade criminosa. Becker era um craque nisso: sabia como ninguém levar para as várias esferas da vida o principal insight dos economistas — o de que precisamos sempre decidir como aplicar os recursos limitados entre as diferentes alternativas. Depois dele, os economistas passaram a usar seu instrumental para inferir o que fazer em áreas como saúde, educação, segurança, vida pessoal. Nesse sentido, ele foi o inspirador do economista-celebridade Steven Levitt e seu Freakonomics, fenômeno editorial lançado em 2005 (e que, por sua vez, gerou uma categoria própria de livros sobre a economia da vida real).

Becker mostrou que a violência representa um custo para a sociedade: não apenas quanto ao que se perde com o crime, mas também ao que é gasto com a prisão de criminosos. Precisamos sempre definir se estamos investindo o suficiente, ou não. Ele introduziu ainda a noção de que o criminoso em potencial toma uma decisão econômica: pesa os prós e os contras da infração. Melhores oportunidades de vida e mais policiamento tendem a mudar a relação custo-benefício — o contraventor poderá desistir da ação se o risco de ser pego ou a chance no mundo do trabalho forem maiores.

Nas últimas décadas, a criminalidade despencou no mundo rico. Ao mesmo tempo, disparou na América Latina, hoje a região mais perigosa do globo. Temos 9% da população mundial, mas respondemos por um terço dos assassinatos. Das cinquenta cidades mais violentas, 42 são latino-americanas — dezessete brasileiras. A taxa média de 21 assassinatos por 100 000 habitantes da região é quatro vezes superior à média global. Menos de 10% das mortes violentas são desvendadas: a impunidade continua a norma.

A decisão de fazer a intervenção militar no Rio de Janeiro teve pelo menos um mérito: alçou o tema da segurança ao centro do debate. Mas nem o mais entusiasmado defensor de Temer, se existir um, diria que o Exército vai resolver a questão: trata-se, no máximo, de um paliativo. Uma recente reportagem da revista EXAME, também publicada pela Abril, mostra quanto custaria enfrentar seriamente o crime no Brasil. São medidas como duplicar a Polícia Federal, investir em treinamento e inteligência das polícias, reformular as penitenciárias, controlar as armas e atuar fortemente em prevenção. O programa custaria 5 bilhões de reais, uma ninharia quando se considera que quase 60 000 pessoas são assassinadas todos os anos — não longe dos 73 000 mortos anualmente na guerra da Síria. A economia envolve, acima de tudo, escolhas. Alguém aí consegue explicar por que um país com áreas inteiras de suas cidades nas mãos de bandidos gastou 5 bilhões de reais com auxílio-moradia para juízes e procuradores só nos últimos quatro anos? Ou por que torramos 8 bilhões de reais com os estádios da Copa?

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Publicado em VEJA de 21 de março de 2018, edição nº 2574

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