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A ditadura se protege

Irritado com a insistência do Itamaraty em pedir o retorno à democracia, o governo de Nicolás Maduro expulsa o embaixador brasileiro de Caracas

Por Duda Teixeira Atualizado em 31 jan 2018, 15h09 - Publicado em 29 dez 2017, 06h00

O mergulho da Venezuela na ditadura tem sido acompanhado da expulsão de diversos diplomatas estrangeiros que estavam lotados em Caracas. Desde 2014, já tiveram de fazer as malas funcionários do governo dos Estados Unidos, do Peru e da Argentina. Os dois últimos a entrar na categoria de persona non grata foram os diplomatas do Brasil e do Canadá. No sábado 23, Delcy Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), que tomou as funções do Congresso democraticamente eleito, anunciou que o brasileiro Ruy Pereira deveria deixar o país. Como ele já estava no Brasil para as festas de fim de ano, não deverá retornar a seu posto. Todos os funcionários empurrados para o aeroporto são de nações que condenaram a repressão do presidente Nicolás Maduro e a destruição da democracia no país.

“A ditadura da Venezuela não permite nenhuma crítica do exterior. Maduro não quer que a população tome conhecimento dos fatos que o mundo todo está denunciando”, diz a cientista social venezuelana Isabel Pereira, do instituto Cedice, em Caracas.

Na Venezuela, Ruy Pereira tinha uma delicada missão a cumprir. Ideologicamente, ele sempre esteve afinado com o chavismo. Em junho de 2015, Pereira deixou ao relento uma comitiva de oito senadores brasileiros, de cinco partidos, que tinha ido a Caracas visitar o opositor Leopoldo López, preso sem ter tido direito a um julgamento imparcial. O grupo foi atacado por militantes chavistas, que esmurraram a van em que estavam os senadores e gritaram “fora!”. Pereira só apareceu para reencontrar os parlamentares brasileiros no aeroporto, na despedida. Depois do impeachment de Dilma Rousseff, no fim de 2015, o Itamaraty mudou de lado e passou a criticar a concentração de poderes e a violência estatal na Venezuela. Pereira, contudo, não foi removido do cargo. Seu bom relacionamento com os chavistas foi considerado um trunfo para que o Brasil pudesse ter alguma relevância e, assim, alguma possibilidade de levar as autoridades a negociar com a oposição, soltar os presos políticos ou desistir da Assembleia Nacional Constituinte. Em tese, esse órgão deveria redigir uma nova Carta. Na prática, passou a governar por decreto, sancionando todas as ordens ditadas por Maduro.

Em paralelo à atuação de Pereira, o Brasil começou a divulgar notas oficiais condenando as atitudes do governo. Cada novo despacho diplomático gerava um novo mal-­estar para o embaixador. Só no ano de 2017 foram cerca de trinta. Os temas tratados eram variados: a destituição da procuradora-geral Luisa Ortega, a morte de manifestantes, os ataques a deputados da oposição, a recusa do governo em aceitar um canal de ajuda humanitária para o envio de alimentos e remédios e as irregularidades e manipulações nas eleições regionais. A maioria dos textos terminava com um pedido para que a ordem democrática fosse restaurada.

Na nota do dia 21 de dezembro, o Itamaraty repudiou a dissolução dos governos municipais de Caracas e de Alto Apure pela Assembleia Constituinte. Essas duas jurisdições tradicionalmente foram ocupadas por membros da oposição. Também foram questionados os obstáculos criados para impedir que os partidos que não são aliados ao governo disputem as próximas eleições. Dois dias depois, Delcy anunciou a expulsão de Pereira. Em retaliação, o Brasil declarou persona non grata o encarregado de negócios da Venezuela em Brasília, Gerardo Antonio Delgado Maldonado.

Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2018, edição nº 2563

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