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“A democracia morre na escuridão”

Por iniciativa própria, os principais grupos de mídia da Austrália censuraram suas capas com o objetivo de cutucar o primeiro-ministro Scott Morrison

Por Leandro Resende Atualizado em 25 out 2019, 10h34 - Publicado em 25 out 2019, 07h00

O conjunto de periódicos com a primeira página coberta de tarjas e com o carimbo top secret parece ter vindo direto de uma ditadura qualquer. Não é o caso. São todos títulos da Austrália, país de democracia muito bem consolidada. Mas também por lá, quem diria, às vezes a imprensa vira alvo de ações que tentam cercear a livre expressão. E por isso os principais grupos de mídia selaram união inédita — uma coalizão, como chamam. Por iniciativa própria, na segunda-feira 21, censuraram as próprias capas com o objetivo de cutucar o governo do primeiro-ministro Scott Morrison, que anda dando mostras de querer tosar as asas dos jornalistas. A campanha, embalada ainda por rádios e TVs, levanta a questão: “Quando o governo esconde a verdade de você, o que ele está acobertando?”. Em junho, a Polícia Federal bateu à porta de uma repórter da News Corp, um dos grandes conglomerados, e levou seu laptop e celular. Ela havia exposto um plano do governo para espionar e-mails, mensagens de texto e até registros bancários de cidadãos comuns. No dia seguinte, os policiais fizeram buscas na sede da TV ABC, que denunciou arbitrariedades cometidas pelas Forças Armadas australianas no Afeganistão. Em ambos os casos, os profissionais podem ser processados e presos. Ao ameaçar calar vozes contrárias a seus interesses, o governo da Austrália replica prática comum em outras plagas. O presidente americano Donald Trump não perde uma oportunidade de torpedear seus desafetos na imprensa, entre eles o bilionário Jeff Bezos, dono do The Washington Post, cujo slogan vale para todos: “A democracia morre na escuridão”.

Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2019, edição nº 2658

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