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“A corrupção é a regra”

José Padilha, criador de ‘O Mecanismo’, explica por que fez uma série sobre a Lava-Jato e dá a sua receita para salvar a política: extinguir PT, MDB e PSDB

Por Marcelo Marthe 16 mar 2018, 06h00

Diretor do sucesso Tropa de Elite, o carioca José Padilha fez uma bem-sucedida transição internacional. Aos 50 anos, une as duas facetas com O Mecanismo: a série é um produto global da Netflix, mas aborda um tema brasileiríssimo — a Operação Lava-Jato. Por telefone, de Miami, ele falou sobre corrupção e política.

Por que o título O Mecanismo? Mais que falar sobre pessoas, eu queria tratar do esquema que a Lava-Jato expôs: um processo criminal instaurado no Brasil há muito tempo, que se conecta com financiamentos de campanhas eleitorais das menores cidades ao governo federal. Campanhas são financiadas por empresas que prestam serviços ao Estado — e essas empresas elegem políticos que depois indicarão operadores de sua confiança para cargos importantes nas estatais. Na construção de uma escola ou de uma refinaria, o preço é aumentado para favorecer empresas, políticos e intermediários. A corrupção não é um acidente na democracia brasileira. Ela é a lógica da democracia brasileira.

Não é arriscado tirar conclusões com a Lava-Jato ainda em andamento? Pensei muito a respeito, e por isso decidi focar os primórdios da operação. Mostro o que significou a captura dos primeiros delatores, como o (ex-diretor da Petrobras) Paulo Roberto Costa. Isso é história. Mas há outra questão: em vez de olharem friamente os fatos, as pessoas tentam adaptá-los à sua ideologia. Eu procuro ser consciente da minha ignorância e ver a Lava-Jato além das paixões políticas.

Na série, Dilma Rousseff vira Janete Ruscov e a Petrobras é chamada de Petrobrasil. Não é ridículo trocar nomes tão óbvios? Essa decisão teve a ver não só com o fato de que a gente dramatizou a história. A Netflix pediu para mudar, por questões jurídicas, e eu mudei. Agora, como brasileiro, não tenho interesse em personificar o mecanismo da corrupção. No mundo real, ele é habitado por pessoas que devem ser punidas. Mas independe delas: com gente do PT, MDB ou PSDB, o mecanismo sobrevive.

A Lava-Jato vai desmontá-lo? Não tenha certeza. A única solução seria o desmonte dos partidos. Se a lei eleitoral fosse aplicada, PT, MDB e PSDB deveriam ser extintos, pelo volume de caixa dois e corrupção que movimentaram. Só assim haveria renovação real.

Há ligação entre a violência no Rio e o mecanismo mais amplo da corrupção? É claro que sim. O (ex-governador) Sérgio Cabral é a Maria Antonieta da Lava-Jato: roubou num volume gigantesco e depois foi se divertir em Paris. Todos acharam que as UPPs iriam dar certo, mas se esqueceram de que a polícia carioca é desqualificada, corrupta e violenta. A intervenção do governo Temer também é só um paliativo. Não vai resolver nada.

Alguns acusam a Lava-Jato de “demonizar” a política. Ao celebrá-la, a série não faria o mesmo? Ninguém está demonizando nada. Estou dizendo que os mecanismos da nossa política são corruptos. De cabo a rabo, em todos os estratos. Quem decide se um corrupto fica no cargo são outros corruptos. É isso, e aquele abraço. O brasileiro não está pedindo muito: quer que a Justiça seja igual para todos. Não é o que acontece. A absolvição da chapa Dilma-Temer no TSE, coordenada pelo (ministro) Gilmar Mendes, foi um escândalo. E a votação no STF que manteve o mandato do Aécio (Neves) no Senado sujou a biografia da Cármen Lúcia (a presidente da corte deu o voto de minerva, que favoreceu o senador). Por essas e outras, o futuro da Lava-Jato não é garantido.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2018, edição nº 2574

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