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A banalidade do mal

Biografia de chefe de polícia de Vargas demole o mito do carrasco poderoso e expõe um tipo mais perturbador: o homem que cumpre ordens cegamente

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jan 2018, 15h29 - Publicado em 5 jan 2018, 06h00
O Homem Mais Perigoso
Do País, de R.S. Rose (tradução de Renato Rezende; Civilização Brasileira; 406 páginas; 64,90 reais) //Reprodução

O título com forte apelo comercial faria sentido se o brasilianista americano R.S. Rose tivesse confirmado, nas pesquisas que lhe permitiram reconstituir a saga de Filinto Müller, o personagem sombrio, brutal e desumano desenhado por desafetos extraordinariamente inventivos e jornalistas sem compromisso com os fatos. A honestidade intelectual do autor resultou numa biografia que exuma não O Homem Mais Perigoso do País (The Most Dangerous Man in the Country, no original em inglês), mas “O Temido Chefe de Polícia da Ditadura Vargas”, como informa já na capa o subtítulo acrescentado pela editora. Nada disso reduz a relevância da obra: o resgate do Filinto Müller de verdade oferece aos leitores a contemplação, em toda a sua perturbadora pequenez, de uma espécie humana que se reproduz com impressionante intensidade nas ditaduras e tem por hábitat as cercanias dos cativeiros: o homem que executa as ordens que vêm de cima. Quaisquer ordens. Sem jamais contestá-las, sem remorsos, sem crises de consciência, sem hesitação.

Até agora, o retrato oficial de Filinto Müller foi o desenhado a quatro mãos por Assis Chateaubriand, um barão da imprensa que ignorava fronteiras éticas, e David Nasser, um ficcionista fantasiado de repórter. Rompido com Getúlio Vargas, Chatô escalou o jornalista de confiança para vingar-se do chefe de polícia com quem antipatizava. Para associar o inimigo à Alemanha hitlerista, Nasser localizou na família do alvo um segundo sobrenome teutônico e criou o supervilão Filinto Strubling Müller, desancado impiedosamente na série de reportagens publicadas na revista O Cruzeiro que depois seriam reunidas no livro Falta Alguém em Nuremberg. O Müller criado por Nasser tornou-se o único integrante do movimento tenentista expulso da Coluna Prestes, “por traição”. Teria sido dele a ideia de deportar Olga Benário Prestes. Por sugestão de Chatô, Nasser qualificou de “nazista” o sorriso de Müller. Era com esse sorriso que o esbirro de Vargas teria acompanhado com entusiasmo e prazer as sessões de tortura que ocorreram diariamente enquanto durou o regime de exceção. Hábil inventor de tipos, Nasser fez de Müller uma versão piorada do alemão Heinrich Himmler.

Na biografia publicada por Rose, as fantasias são demolidas por fatos. Müller não foi expulso da Coluna Prestes pela simples razão de que a coluna não existia quando o tenente mato-grossense desistiu de derrubar a bala o governo Artur Bernardes e se exilou na Argentina. É verdade que o Estado Novo institucionalizou a tortura, destinada a quebrar o físico e a alma dos participantes da rebelião comunista de 1935 e do levante integralista de 1938. Mas a CPI criada no Congresso para apurar as violências nos porões da polícia política terminou sem que nenhum depoente denunciasse a participação de Müller em alguma sessão de tortura, como carrasco ou espectador. Sobram evidências de que o biografado sabia que os métodos usados no interrogatório de quem guardava informações relevantes incluíam invariavelmente agressões selvagens. Porém as atrocidades só começavam depois que o chefe encerrava o expediente e ia para casa jantar em companhia da família. Rose também demonstra que, por mais poderoso que fosse, um chefe de polícia jamais se atreveria a ordenar deportações. No Estado Novo, tal atribuição era privativa do ditador. Foi Getúlio, portanto, quem determinou a viagem que levaria a mulher de Prestes à Alemanha e ao campo de concentração onde seria assassinada. Coube a Müller desincumbir-se de mais uma missão com a habitual eficiência.

Sempre que confrontado com perguntas sobre a face escura da era Vargas, Müller repetia que apenas cumprira ordens. Quem fez da mesma frase um mantra foi Adolf Eichmann, o carrasco alemão sequestrado na Argentina em maio de 1960, julgado no ano seguinte por um tribunal israelense que o condenou à morte e executado em 1962. “Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis”, resumiu Hannah Arendt no extraordinário Eichmann em Jerusalém — Um Relato sobre a Banalidade do Mal. “Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia a ordens, ele também obedecia à lei.” Todas as ditaduras são igualmente repulsivas, mas há um cósmico buraco negro a separar o III Reich do Estado Novo. Nem mesmo David Nasser acreditava que o banco dos réus de Nuremberg só ficaria completo se Müller estivesse lá. Não há semelhanças notáveis entre Müller e Himmler. Mas há visíveis traços comuns ao chefe de polícia de Vargas e Adolf Eichmann. Fosse qual fosse a ideologia do regime a que servissem, ambos fariam com aplicação e eficácia o serviço determinado pelos superiores hierárquicos.

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Depois de duas derrotas na eleição para o governo estadual, Müller conformou-se com o papel de senador vitalício por Mato Grosso. Foi líder do governo JK, aliou-se aos militares em março de 1964, encontrando em Emilio Médici o presidente que se juntaria a Getúlio no altar dos seus santos particulares e encerraria a orfandade política decretada pelo suicídio. Tinha 73 anos quando decolou rumo a Paris, em 1973, acompanhado pela mulher, Consuelo, e pelo neto, Pedro. A poucos minutos do Aeroporto de Orly, um incêndio provocou um dos mais terríveis acidentes da aviação brasileira. A presença de várias celebridades a bordo obrigou Müller a socializar o espaço jornalístico reservado à tragédia. Ele não foi o número 1 sequer no noticiário que registrou a morte do líder no Senado do governo Médici — tão indissociável da tortura de presos políticos quanto a ditadura de Vargas.

Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2018, edição nº 2564

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