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Os livros, séries e quadrinhos que agora são aceitos pelas igrejas

Tachados durante décadas como más influências, fenômenos da cultura pop são abraçados em um esforço para não perder fiéis

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 20 dez 2019, 19h53 - Publicado em 20 dez 2019, 06h00

Não é de hoje que ficção e religião vivem às turras. Quanto maior o componente de fantasia na obra, mais ela estará sujeita ao crivo do que “convém” (para usar o jargão do meio) que o fiel assista ou leia. Em nome do combate ao “ocultismo”, censores condenaram sem dó os livros de autores como C.S. Lewis, que descreveu seu As Crônicas de Nárnia como uma alegoria da Bíblia, e J.R.R. Tolkien, de O Senhor dos Anéis, a vida toda um católico fervoroso. Assim seguiu a missa até uma reviravolta recente chacoalhar o universo dos jovens: os geeks, aqueles seres esquisitos que gostam de magos, elfos, feiticeiros e heróis, saíram do armário e, movidos por uma conjuntura que envolve internet, cultura pop e muito marketing, passaram a ser vistos como uma tribo cool.

Confrontados com a possibilidade de perder parte do rebanho para as tentações do planeta nerd, como a turma também é conhecida, expoentes católicos e das igrejas pentecostais estão revisando conceitos e dando aos cristãos que gostam dessas coisas argumentos para ir em frente na exploração da Terra Média. “Vemos sacerdotes e pastores recomendando a saga de Tolkien como um referencial cristão”, diz Samuel Coto, diretor editorial da HarperCollins, editora da série que está entre as mais vendidas da história. Dez anos depois do lançamento dos filmes, a trilogia foi tema de análise — elogiosa — no canal do YouTube mantido pelo padre Paulo Ricardo, um renomado influencer católico, com mais de 750 000 seguidores. A própria biografia de Tolkien, que saiu no ano passado, esmiúça sua relação com a religião e a influência dela em suas obras. Também impressiona a multiplicação de livros e conferências que exploram o viés cristão de As Crônicas de Nárnia, série que se popularizou como filme da Disney e ganhará uma nova versão pela Netflix.

Teletransportando o interesse por hobbits e feiticeiros para o mundo tal qual o conhecemos (ou quase), o canal do YouTube Dois Dedos de Teologia, com quase 500 000 inscritos, oferece vídeos que comentam — positivamente — o universo de heróis da Marvel e até séries violentas, como Breaking Bad. “Aprendemos que o que não é gospel é necessariamente do mal, mas isso é um exagero”, avalia o teólogo e youtuber Yago Martins, de 27 anos. “Se os heróis dos quadrinhos são os deuses do Olimpo do nosso tempo, suas histórias são nossa mitologia e precisam ser vistas como espelho dos nossos padrões de comportamento.” Um dos resultados mais notórios dessa mudança é a reinterpretação, por assim dizer, das sangrentas batalhas entre super-heróis e vilões: antes, elas “deformavam” o imaginário infantil; agora, o “vingador” Capitão América defende valores cristãos e o destino trágico de Tony Stark em Vingadores: Ultimato (ops, desculpe o spoiler para quem ainda não viu) exemplifica uma jornada de crescimento e sacrifício.

A preocupação das religiões com tudo o que cheira a “misticismo” é tão antiga quanto o cristianismo, mas se intensificou com a disseminação das igrejas neopentecostais e de sua contrapartida no lado católico, o movimento carismático. “Entre os anos 1980 e 1990, esses grupos ganharam canais de comunicação e passaram a alertar para as influências maléficas que contaminavam a cultura”, lembra o cientista da religião e quadrinista Rubinho Pirola. “Davam a impressão de que bastava falar sobre um suposto feitiço para algo ruim acontecer.” Evangélico há doze anos, o também quadrinista Marcos Oliveira, de 34 anos, tinha problemas para assistir ao seu desenho favorito, o anime japonês Dragon Ball. “Corria para desligar a TV quando aparecia o Mister Satan”, conta o nerd assumido, que por respeito às suas convicções se desfez de uma coleção de 3 000 filmes. Hoje, o Mister Satan — nome, aliás, produzido por uma falha na tradução do japonês — está cooptado. “É uma criatura de ficção sem relação alguma com figuras demoníacas”, explica Oliveira.

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Uma amostra de que cristão e geek não são mais incompatíveis é a X-Con, uma espécie de Comic Con gospel organizada por Oliveira que reuniu 800 pessoas na cidade de Valinhos, São Paulo, logo na primeira edição, em 2017. De tão bem-sucedida, a X-Con deste ano teve uma edição extra em Curitiba, com a presença do pastor e dublador Marco Ribeiro, a voz brasileira do Homem de Ferro. “As igrejas me convidam porque sabem que minha ligação com o mundo pop atrai os jovens”, diz Ribeiro.

FÉ E DIVERSÃO –  Oliveira (de boné azul), com frequentadores da última X-Con: a turma combina Frodo com Jesus Jefferson Coppola/VEJA/.

A dificuldade de firmar elos com os adolescentes de seu rebanho motivou outro pastor, o paranaense Eduardo Medeiros, a usar e abusar de referências ao universo nerd em suas pregações. As palestras o levaram a criar o Devocional Pop, compilado de reflexões que unem um versículo bíblico a uma história de personagem famoso. O livro, que já vendeu 30 000 exemplares, abre espaço até para o bastardo Jon Snow, de Game of Thrones — uma das séries mais satanizadas no meio gospel por causa das cenas de nudez e violência. Há quem extraia da sofrida família Stark lições de união e honra. “Recomendo aos fiéis que pulem as cenas de pornografia”, contemporiza o youtuber Martins.

No clima de aproximação das igrejas com a ficção — uma trilha de idas e vindas, como prova o bafafá em torno do especial de Natal do Porta dos Fundos (veja o quadro) —, o bruxinho Harry Potter é um espinho na garganta da cúpula cristã, que ainda não decidiu se a escritora J.K. Rowling leva ou não a criançada a cultuar o capeta. “Quando saiu o primeiro livro, li o primeiro capítulo e pensei: ‘Essa mulher quer corromper a juventude’. Hoje vejo que dá para aproveitar certas coisas”, diz Felipe Bezerra, 39 anos, do podcast Nerds, Geeks e Católicos. Matrix e Star Wars também estão fora do índex. “Sempre preciso insistir que Deus não é a Força, que você pode usar do jeito que quiser”, ressalta Bezerra.

A saga de George Lucas, aliás (leia a reportagem na pág. 94), já foi objeto de análises positivas na revista católica Communio, fundada pelo papa Bento XVI. Dentro do Vaticano, o frei astrônomo Guy Consolmagno, diretor do Observatório Astronômico do Vaticano, é fã declarado de aventuras interestelares e proclamou que o papa Francisco é o Mestre Yoda da Igreja Católica. “Quando examinamos os preceitos morais daquela galáxia muito distante, deixamos de lado os preconceitos e vemos o bem e o mal cumprindo seu papel em diferentes contextos”, explicou Consolmagno a VEJA. “Além disso, histórias de ficção nos fazem pensar sobre as grandes questões da humanidade — e isso é bastante religioso”, acrescentou. Nerds cristãos do mundo, embarquem nessa nave e boa viagem.

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Publicado em VEJA de 25 de dezembro de 2019, edição nº 2666

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