Depoimentos revelam os padrões de abuso e manipulação dentro das igrejas evangélicas
Mulheres contam em depoimentos exclusivos a VEJA como foram abusadas por líderes religiosos
O discurso da pastora Helena Raquel, principal líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra, durante o Congresso dos Gideões em Balneário Camboriú (SC), no dia 2 de maio, expôs uma chaga até então varrida para debaixo dos púlpitos evangélicos: a pedofilia e o abuso sexual cometidos por pastores. Com uma pregação de uma hora e vinte minutos, Helena Raquel acusou a cúpula religiosa de silenciar sistematicamente as vítimas — um tabu que, segundo ela, precisa ser enfrentado de dentro para fora.
Enquanto denominações evangélicas, descentralizadas e sem uma autoridade única, resistem a adotar medidas protetivas consistentes, a fala de Helena Raquel expõe a inversão de valores que faz com que agressores sejam acolhidos e vítimas, culpadas. A rara coragem da pastora, que nunca antes havia sido manifestada por uma liderança de seu porte, ecoou nas redes sociais e encorajou mulheres vítimas de abuso a romperem o silêncio, como mostram depoimentos inéditos colhidos por VEJA.
Ane Almeida, 42 anos
A psicóloga tinha 16 anos quando foi abusada sexualmente por um pastor de sua confiança, que a levou a um motel após meses de aproximação. Quando conseguiu contar o absurdo à esposa dele, a igreja tratou o caso como um “deslize” do pastor e se voltou contra Ane, que passou a ser vista como “a sedutora”. “A comunidade orou por ele. A vítima nem é ouvida ou olhada”, relata. Hoje trabalha com mulheres cristãs vítimas de abuso: “Muitas não entendem que foram vítimas”.
Jéssica Korbe, 33 anos
Aos 17 anos, a catarinense foi apalpada dentro da piscina de um retiro jovem por um pastor da Assembleia de Deus de Balneário Camboriú, que depois passou a enviar mensagens dizendo que estava apaixonado e que tinha sonhos eróticos com ela. Ao levar as denúncias a uma conselheira e ao pastor presidente, foi orientada a apagar tudo e não fazer escândalo. O abusador foi apenas transferido de congregação e só preso meses depois, quando outras adolescentes foram violentadas por ele. “Se eu tivesse sido ouvida, as outras crianças não teriam sido abusadas depois”, afirma Jéssica, que se afastou da igreja após ser chamada de “espírito de pomba gira” pela esposa do agressor.
Vanilda Bordieri, 52 anos
Cantora gospel, ela tinha apenas 16 anos quando líderes da igreja a incentivaram a se aproximar de um obreiro recém-separado, sob a justificativa de que seria um “plano de Deus”. No primeiro encontro, foi levada a um sítio, estuprada e abandonada sozinha no local. Punida e julgada pela comunidade enquanto o agressor era acolhido, Vanilda só se reconheceu como vítima por volta dos 30 anos. “Fui jogada a um predador. O abuso é uma marca que você carrega independente do tempo. Não é que eu demorei para falar, eles demoraram para me ouvir”, diz ela.
Claudia Almeida Matos Nogueira, 57 anos
A violência começou aos 5 anos, quando a família foi como missionária para a Bolívia. Claudia passou a ser abusada sexual, física e espiritualmente por seu próprio pai, um pastor evangélico. Ao contar para a mãe, foi espancada pelo pai, obrigada a desmentir tudo e dormiu de castigo. Os abusos se estenderam até os 21 anos, dentro e fora da igreja, enquanto a instituição religiosa apenas transferia o pai de cidade ou país a cada escândalo. “Meu pai era um homem que falava de Deus. Era considerado exemplar. Era um ungido, líder. Em casa, ele era um demônio”, diz Claudia, que tentou suicídio duas vezes e, mesmo depois de adulta e missionária, foi mandada embora da instituição ao publicar um livro sobre o caso.
Adrielle Garcia, 40
A terapeuta tinha cerca de 20 anos e frequentava uma igreja batista pentecostal em Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro, onde via o pastor como um irmão mais velho e brincalhão. Durante uma viagem ao monte com o pastor, o marido e a sobrinha, ao dormirem na casa do religioso, ele colocou a mão em seu seio. Envergonhada, fingiu que nada havia acontecido. No dia seguinte, o pastor pediu perdão pelo toque “com maldade”, mas logo ela descobriu que uma amiga do ministério de dança havia passado pela mesma situação na mesma semana: ele havia passado a mão na perna dela e também se desculpado em seguida. “Ninguém acredita quando a gente denuncia o pastor”, diz Adrielle. “Hoje acho que a igreja é um dos piores ambientes para mulher sobreviver. Falta voz”, reflete.
Ana Carollo, 30 anos
Com apenas 12 anos, a estudante foi chamada por um pastor auxiliar à sala onde ele supostamente gravaria um programa de rádio. Sozinha com ela, o homem começou a se masturbar e a massagear seu corpo. Quando o caso foi levado ao pastor líder, o agressor negou tudo, e a esposa dele, grávida, disse que Ana estava destruindo a família. Silenciada e tomada pela culpa, a menina ainda permaneceu na mesma igreja por algum tempo. “A igreja prefere tratar tudo internamente para não manchar a imagem. Por isso escondem violências, abusos e adultério”, afirma Ana.
Mulheres vítimas de assédio sexual nas igrejas evangélicas quebram o silêncio
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