Após um ano de papado, Leão XIV mostra que está atento aos ventos da modernidade
Robert Prevost tem se firmado no campo mais progressista ao se opor justamente à banda ultratradicionalista da Igreja
Quando apareceu na janela central da Basílica de São Pedro, em 8 de maio de 2025, Leão XIV surpreendeu o mundo. Em meio ao rito do anúncio do novo pontífice — após a fumaça branca expelida pela chaminé da Capela Sistina veio o aviso de que, sim, “habemus papam” —, a multidão que tomava a bela praça de linhas barrocas saudou o primeiro americano a ocupar o Trono de Pedro, um nome que não constava na lista dos mais cotados para substituir o falecido Francisco. Os vaticanistas de plantão se apressaram, então, em tentar decifrar o sucessor do argentino que por doze anos deixou que os ventos da modernidade arejassem em certa medida a Igreja Católica — tudo, evidentemente, ao ritmo de uma instituição de 2 000 anos, fincada sobre dogmas e tradições. A grande questão à mesa de Roma era se Robert Prevost, de 70 anos, religioso sabidamente de discurso conciliador e afeito à discrição, seguiria na mesma toada, abrindo os olhos às transformações à sua volta.
Um ano de papado depois isso ficou mais claro. Apesar de ter retirado do armário as vestes ornamentadas que Francisco havia aposentado, rezar missas em latim (sem abandonar outros idiomas) e voltar aos recintos papais do Palácio Apostólico, atitudes que agradaram a ala conservadora, Leão XIV tem se firmado no campo mais progressista ao se opor justamente à banda ultratradicionalista da Igreja. Com a timidez que contrasta com a personalidade carismática do antecessor, ele também ampliou as críticas à “moralmente indefensável” política anti-imigratória que se alastra pelo globo e chegou a repreender governantes negacionistas frente às mudanças climáticas em recente cerimônia na qual, com toque de ironia, abençoou um naco de gelo extraído da calota derretida da Groenlândia. Também pôs mais mulheres para chefiar dicastérios da Santa Sé, conduziu africanos à cadeira de cardeal e não hesitou ao entrar em rota de colisão com o presidente Donald Trump, seu compatriota, a quem evita como pode citar nominalmente (ocorreu duas vezes), mas cujo ímpeto belicoso não esconde repudiar.
Seu último lance que reverberou mundo afora, como tudo o que é dito por um papa, foi o direto recado que enviou à fatia mais reacionária do catolicismo — ele acaba de excomungar a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a congregação brotou como reação às mudanças promovidas anos antes por João XXIII no Concílio Vaticano II, com o propósito de aproximar a Igreja das fervilhantes questões contemporâneas à época. “Os chamados tradicionalistas entenderam o aceno à modernização como o início da destruição do catolicismo”, afirma Rodrigo Coppe, professor de ciências da religião da PUC Minas. Houve aí expulsões dos rebeldes, que defendem missas unicamente em latim, com o padre postado de costas para o rebanho, e por nada reconhecem os demais credos. Mas na vez do alemão Bento XVI, cujo reinado durou até 2013, deu-se a reconciliação, marcada pela volta dos excomungados — vespeiro no qual o sucessor Francisco não tocou, convivendo sem sobressaltos com a turma radical.
O que fez o caldo entornar agora foi o fato de o grupo ter ignorado a ordem de Leão XIV para suspender a cerimônia que tornaria bispos, sem sua anuência, quatro integrantes do grupo tradicionalista. O papa não engoliu e excomungou não só os aspirantes à ascensão na hierarquia eclesiástica, como todos aqueles que aderem formalmente ao movimento — uns 600 000 ao todo. Até no Brasil a posição do pontífice se fez sentir: em Brasília, o padre Françoá Rodrigues foi citado no rol dos cancelados pelo chefe do Vaticano. Em nota a VEJA, o padre, que à revelia da decisão continuou a celebrar missas na Capela Santo Atanásio, foi taxativo: “Não queremos nada com esse modernismo que entrou na Igreja”. O Brasil, aliás, ocupa lugar de destaque na história da São Pio X, que conta com 24 capelas em onze estados. Amigo de Lefebvre, o então bispo de Campos, dom Antônio de Castro Mayer, tornou-se um dos mais vocais opositores das reformas tocadas por João XXIII e o único brasileiro a ser expulso da Cúria em 1988, junto com outros estrangeiros de mesmo matiz.
A resistência de Leão XIV às vertentes do cristianismo aferradas a antigas liturgias é uma das mais contundentes manifestações de como o novo papa enxerga o papel da Igreja, a qual, para ele, deve não apenas verter o olhar para o mundo, mas de algum modo influenciá-lo. Com um discurso que soa meticulosamente pensado antes de proferido, destoando dos improvisos de Francisco, o papa resolveu elevar o tom diante de uma Casa Branca que emprega o conceito teológico de “guerra santa” para justificar a fúria das bombas no conflito com o Irã. “Ai daqueles que manipulam a religião e o nome de Deus para obter vantagens, arrastando o que é sagrado para a imundície”, disparou, depois de ter ouvido de Trump que era um zero à esquerda em tópicos internacionais. E foi então que disse com todas as letras o nome que evitava trazer à baila: “Não temo o governo Trump”, afirmou. Saiu ainda em defesa das flotilhas humanitárias que vira e mexe tomam o rumo de Gaza e são interceptadas por Israel e, em gesto prático, despachou diplomatas da Santa Sé à Ucrânia para ver se ajudavam nas duras costuras pela paz.
Analistas que vivem de entender os códigos nem sempre explícitos dos papas veem na disposição de Leão XIV em usar seu picadeiro para se contrapor a Trump um passo para distanciar-se do fato de ser americano — algo que o mercurial mandatário dos Estados Unidos faz questão de enfatizar, vestindo o usual figurino de protagonista da história. “Ele só foi escolhido por ser americano. A Igreja achou que seria a melhor maneira de lidar comigo”, gabou-se o presidente. Entre um embate e outro, o pontífice vai mostrando sua face. “A Santa Sé nem sempre se mobiliza quando convocada a tomar lados, mas esse não é o caso de Leão”, observa o historiador da religião Victor Gama.
Conhecido como o “pastor de duas pátrias”, tendo dividido a carreira entre Chicago e a prelazia de Chiclayo, no Peru, ele adquiriu uma visão abrangente do mundo. Operador político ágil e bem informado, se desfaz da discrição sempre que julga valer a pena se expor. “Se a necessidade se impõe, ele passa a ter atitudes e discursos firmes, mais até que os de Francisco”, analisa Christopher White, autor do livro Papa Leão XIV: Dentro do Conclave e o Alvorecer de um Novo Papado.
Estar antenado com a ebulição da vida em sociedade fora dos muros do Vaticano é, para o pragmático pontífice, também questão de sobrevivência institucional. É verdade que ele herdou a maior de todas as igrejas, mas sabe estar diante de uma lenta, porém constante erosão de fiéis. Maior nação católica do planeta, o Brasil registrou recuo de 65% para 56% no rebanho na última década, período em que os evangélicos avançaram para 27% — um encolhimento que se avista em outros países da América Latina e na Europa. “A realidade é que o papa não se preocupa como será rotulado. Seu principal norte é a estabilidade da Igreja”, diz o historiador Vinícius Mérida, da PUC Minas.
É nessa paisagem que Leão XIV desponta tratando até do “poder descontrolado” das big techs em sua primeira encíclica. Na inescapável comparação com Francisco, vaticanistas o situam um tom abaixo na escala do progressismo em debates que fazem tremer a Praça de São Pedro, como a bênção a casais gays instituída pelo antecessor, sobre a qual o atual papa diz haver “coisas mais importantes”, embora não volte atrás. Quanto à subida das mulheres na engessada estrutura do Vaticano, se iguala a Francisco, apontando o dedo para religiosos que querem freá-las em “papéis que elas bem poderiam exercer”. Leão XIV também trabalha em prol de sua biografia — acusado de leniência em relação a um padre que teria por anos abusado sexualmente de menores em Chicago, passou a se reunir agora com vítimas de vários cantos. Diz que a Igreja fracassa ao não acolhê-las como deveria. Ao se ver diante da inglória missão de definir a si mesmo, o pontífice se considera um “construtor de pontes”. A extensão delas só se conhecerá mais tarde, mas claramente não apontam para o passado.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005







