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Em dossiê, Witzel denuncia contratos milionários do governo sem licitação

VEJA teve acesso a 74 documentos que relacionam 27 empresas. Destes, 21 foram fechados sem concorrência pública e envolvem um total de R$ 60,2 milhões

Por Cássio Bruno Atualizado em 9 jul 2021, 10h02 - Publicado em 9 jul 2021, 06h00
BOMBA - Witzel na CPI: revelação de fatos “gravíssimos” no próximo depoimento -
BOMBA - Witzel na CPI: revelação de fatos “gravíssimos” no próximo depoimento – Edilson Rodrigues/Ag. Senado

Enrolando-se mais e mais a cada depoimento prestado à CPI da Pandemia, o governo de Jair Bolsonaro tem pela frente outra bomba a ser desarmada, esta no reduto eleitoral original do clã presidencial: contratos firmados sem licitação, inclusive com empresas investigadas por outras irregularidades, para a prestação de serviços terceirizados a órgãos federais no Rio de Janeiro, a maioria hospitais e outros serviços de saúde. VEJA teve acesso a 74 contratos que relacionam 27 empresas. Destes, 21 foram fechados sem concorrência pública nos últimos dois anos e envolvem um total de 60,2 milhões de reais. Nos demais, o que chama atenção é a quantidade de aditivos agregados aos contratos originais no decorrer do atual governo — são 82 no total. Entre os beneficiários desses negócios com o governo federal estão pelo menos dois presos em operações da Polícia Federal e do Ministério Público por suspeita de participação em esquema de desvio de recursos também na área da saúde, só que na esfera estadual. O dossiê vai ser entregue aos senadores da CPI, em depoimento reservado a ser marcado — seria na sexta 9, mas foi adiado —, pelo ex-governador do Rio Wilson Witzel (PSC), afastado do cargo por suspeita de ocupar posição de liderança no propinoduto fluminense.

Removido definitivamente do Palácio Guanabara ao fim de um processo de impeachment em abril, Witzel falou pela primeira vez à CPI, no mês passado. Condenou com veemência a atuação federal no combate à pandemia, repetiu ser vítima de perseguição política, disse se sentir ameaçado e, amparado por um habeas-corpus concedido previamente pelo Supremo Tribunal Federal, encerrou sua participação e foi embora. Combinou-se então uma segunda audiência, esta fechada, para que apresentasse outras denúncias — e é nela que o ex-governador promete abrir o vespeiro dos contratos federais no Rio. O epicentro dos acordos sem licitação é o Hospital Federal de Bonsucesso, na Zona Norte da capital, que empenhou mais de 13 milhões de reais em cinco contratações entre abril de 2019 e julho de 2020. Três delas contemplam a Cemax Administração e Serviços, encarregada de fornecer ao hospital mão de obra de “apoio operacional administrativo”. Outras duas empresas, a Nova Rio Serviços Gerais e a Gaia Service Tech, foram contratadas sem concorrência para “atendimento de demandas” da Creche Itália Franco, gerida pela unidade de saúde de Bonsucesso.

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NA MIRA - Hospital de Bonsucesso: cinco contratos em dois anos para o campeão de serviços sem concorrência pública – Fabiano Rocha/Agência O Globo

Witzel sabe do que está falando. O esquema federal, a julgar pelos documentos, não é muito diferente do que ocorreu no próprio estado durante sua gestão. Velha conhecida nos bastidores das negociatas políticas, a Gaia é alvo de investigações policiais por suspeita de fazer parte de esquemas de corrupção. Seu dono, e de várias firmas que celebraram contratos com o governo do Rio por anos seguidos, é Mario Peixoto, preso na Operação Favorito, um dos braços da Lava-Jato. Outra personagem que aparece como beneficiada em contratos estaduais e federais é a Verde Gestão de Serviços e Resíduos. A empresa foi usada para desviar dinheiro público na vasta rede de corrupção montada a partir de 2019 dentro do governo do Rio. Preso na Operação Tris In Idem (a mesma que afastou Witzel), seu dono, o empresário Edson Torres, procurou o Ministério Público e explicou em detalhes como funcionava o esquema de propina — confessou inclusive haver participado de desvio de recursos na Secretaria de Saúde estadual em plena pandemia de Covid-19. Nas acusações que serão levadas por Witzel à CPI, dois dos contratos que dispensaram concorrência pública, turbinados posteriormente por quatro aditivos, foram abocanhados justamente pela Verde Gestão e preveem a prestação de serviços de “controle de portaria” e fornecimento de “equipamentos e ascensoristas” ao Instituto Fernandes Figueira, unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada à União. Outra empresa de Torres, a Magna Vigilância Segurança Patrimonial, recebeu contrato de 1,1 milhão de reais (engordado por dois aditivos) do governo federal, conquistado em pregão eletrônico em outubro de 2019, para fazer a vigilância e a segurança desarmada nas duas instalações do Museu Castro Maya, em bairros do Rio.

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EXPOSIÇÃO - Peixoto, preso por envolvimento no propinoduto estadual: empresa na lista das contratações federais – Dikran Junior/Futura Press

Os negócios milionários distribuídos pelo governo federal sem licitação no estado estão espalhados ainda pela Superintendência do Ministério da Saúde na capital fluminense, pelos hospitais federais da Lagoa e do Andaraí, pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), pelo Instituto Nacional de Cardiologia e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). Um deles, em que a Vinil Engenharia e Serviços presta “apoio administrativo” à superintendência do ministério em troca de 1,7 milhão de reais, já está sendo investigado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), por suspeita de irregularidades. A mesma Vinil possui mais um contrato sem concorrência, com cinco aditivos, no Hospital da Lagoa, para “entregar, organizar e guardar documentos” e “dar auxílio à locomoção de pacientes”.

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SOB AMEAÇA - Bebianno: idas ao Palácio Guanabara para pedir segurança – Ricardo Borges/Folhapress/.

O campeão dos contratos sem licitação, Hospital Federal de Bonsucesso, um dos maiores da rede pública do Rio, esteve no noticiário em fevereiro de 2019, quando o então secretário-geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno (1964-2020), denunciou que uma equipe despachada para fiscalizar o local havia sido ameaçada por milicianos. Dias depois, o ministro foi exonerado do cargo pelo presidente Jair Bolsonaro. No depoimento secreto à CPI, Witzel entregará vídeos de Bebianno, morto em decorrência de um infarto no ano passado, chegando ao Palácio Guanabara para encontros em que, segundo o ex-governador, lhe pediu que garantisse sua segurança, pois tinha medo de ser assassinado. O próprio Witzel, ex-­aliado e hoje desafeto do presidente Bolsonaro, solicitou e será incluído, junto com a mulher, Helena, e os filhos, no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita). Na primeira vez que depôs perante a CPI, o ex-governador bateu boca com o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho mais velho do presidente. Para embasar agora o pedido de proteção, seus advogados adiantaram que, no próximo depoimento, ele vai revelar fatos que “são gravíssimos e envolvem muitas pessoas e autoridades”. A sessão, ainda que reservada, promete fortes emoções.

Publicado em VEJA de 14 de julho de 2021, edição nº 2746

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